A matança começou antes do que todos esperávamos. Guinho, Ceará, Tatá, Fabiano... Todos mortos na mesma noite, com muitos tiros e requintes de crueldade. Por conta disto instaurou-se o medo. São onze e meia da noite e ninguém se atreve a por a cara para fora do portão de casa. As ruas estão desertas, o vento não sopra, os ratos não saem a vasculhar o lixo como de costume e até os fantasmas têm medo de servirem de alvo para a fúria. Não há tráfico nem orgias estimulantes; para alegria das mães, as meninas de treze anos, futuras grávidas adolescentes, estão hoje a salvo.. Nós estamos cada um em seu bueiro, enroscados aos ratos na tentativa de aquecer-nos; mas, de repente, a galeria onde estamos é invadida por uma onda de excremento de donas-de-casa, comerciantes, policiais, cabos da aeronáutica, crentes, loucos, tuberculosos e candidatos a vereadores. A merda quente e peganhenta, recém-expelida, cai sobre nós que finalmente percebemos que nossos tremores não são de frio, e sim de medo. Não é mais uma brincadeira com armas que atiram chapinhas, não é mais como bater ou apanhar dos garotos da rua vizinha. Crescemos, envelhecemos, somos homens e agora há grandes e quentes pedaços de chumbo prontos a perfurar-nos o crânio.
Sou o que corre menos perigo, se é que corro algum. O “rapaz pacato, cordial e inteligente”, diriam os vizinhos. Mesmo assim tremo como os outros; o cinismo não me pode salvar sempre. E enquanto tremo penso em Rosa, que dizia amar-me porque sou louco e depois me largou aqui para morrer; eu a imagino aqui, deitada sobre mim, fingindo estar feliz, mas intimamente torcendo o nariz por ver excremento por toda parte. Para o Inferno! Vá viver com seu jovem saudável e purificado. Prefiro pensar em Luciana, que com certeza há de sentir minha falta, estando onde estiver.
Às vezes, em meio ao desespero, só consigo pensar em mulheres. São poucas e sequer são realmente minhas, mas quando quero pensar em algo que possuo, são só o que me vem a cabeça...
Como será a boceta de Rosa? Que mistérios esconderá sua rasa e limpa xoxotinha de virgem? Sim, as virgens são raras e diferentes entre si. A maioria tem apenas duas ou três gotas de sangue dentro da boceta; outras têm também um pequeno ou grande grito; algumas têm sangue suficiente para uma Segunda defloração; algumas têm já um óvulo à espera, outras têm antes do óvulo uma cartilha e um àbaco; algumas têm amor, outras um encharcado bilhete azul; algumas têm restos de esmalte de unha; algumas não têm nada dentro, nem mesmo hímen, são completamente ocas e não causam a menor comoção ou remorso. Mas como será então a de Rosa? Que haverá logo após a placa onde eu lia “cuidado com o cão!”? Talvez haja estrelas de primeira grandeza, talvez o espírito de alguma puta enforcada, ou um abismo no qual seu homem se estatelará mil vezes; ou talvez haja simplesmente luz, paixão e alegria – um raro diamante que eu joguei ao lixo como se fosse vidro.
Sou jovem, muito jovem e até hoje fracassei em tudo. Fracassei como estudante, fracassei como filho, fracassei como irmão, como amigo, como vagabundo, cafajeste, amante e até como homem; mas o meu fracasso maior, talvez pai de todos os outros, foi não ter levado Rosa para a cama, foi não Ter sequer tentado. Pois eu a amava como qualquer idiota comum, ou até mais, eu a amava como amava um idiota qualquer do tempo dos românticos. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, jamais passou pela minha cabeça imaginar que ela pudesse ter uma boceta, por menor que fosse; e só agora, mais de um ano depois dela ter-me deixado sozinho no meio das feras, comecei a ter alguns sonhos obscenos com ela. Felizmente, embora hoje a ausência dela me angustie um pouco (angustia-me mais saber que ela está com um imbecil), na época não levei nosso caso a serio, o que foi minha salvação, meu Cristo. Se eu a tivesse levado a serio, ela e suas palavras e suas cenas de ciúmes, fatalmente teria estourado meus miolos...
As ruas desertas e em completo silêncio... o ronco do motor de um carro pode ser o alarme para uma chacina. E eu aqui, em meu subterrâneo, divagando a respeito de Rosa enquanto penso em outras mulheres. Só mulheres – por quê? Porque não há nada mais no que pensar, não existe outra coisa que não seja deprimente ou mesmo desesperadora. Não há mais possibilidade de conquista porque não há o que conquistar. Não há nada que surpreenda: um homem entra numa escola e fuzila cinqüenta crianças, enquanto na casa de outro a polícia descobre quinze cadáveres de adolescentes; e o único motivo de espanto é saber que isto já se tornou banal. Um dia o homem desembarcará no centro do sol e isso não provocará nem surpresa, nem rugas na testa. O último assombro foi a bomba-atômica. Hoje a maior conquista de um homem é um bom emprego burguês e dinheiro suficiente para comprar um par de guarda-costas; e que se dane a salvação das florestas, das baleias azuis e dos direitos da criança. Falimos moral e espiritualmente, atropelamos qualquer coisa que se intrometa entre nós e o nosso dinheiro. Eles faliram... nós somos os frutos podres de suas árvores contaminadas pela praga. Não pensamos, não queremos, nem cremos em nada; apenas damos vazão ao nosso latente instinto de anarquia, sexo e violência. Somos o que foi feito de crianças as quais nada ensinaram. Sóbrios ou não, nós saímos, fodemos e voltamos para casa; depois saímos novamente, , fodemos outra vez e não voltamos para casa até que o sol nasça e anuncie um novo dia igual; então dormimos, acordamos e de vez em quando nos sentamos na privada e sonhamos com um mundo diferente...
Sou o que corre menos perigo, se é que corro algum. O “rapaz pacato, cordial e inteligente”, diriam os vizinhos. Mesmo assim tremo como os outros; o cinismo não me pode salvar sempre. E enquanto tremo penso em Rosa, que dizia amar-me porque sou louco e depois me largou aqui para morrer; eu a imagino aqui, deitada sobre mim, fingindo estar feliz, mas intimamente torcendo o nariz por ver excremento por toda parte. Para o Inferno! Vá viver com seu jovem saudável e purificado. Prefiro pensar em Luciana, que com certeza há de sentir minha falta, estando onde estiver.
Às vezes, em meio ao desespero, só consigo pensar em mulheres. São poucas e sequer são realmente minhas, mas quando quero pensar em algo que possuo, são só o que me vem a cabeça...
Como será a boceta de Rosa? Que mistérios esconderá sua rasa e limpa xoxotinha de virgem? Sim, as virgens são raras e diferentes entre si. A maioria tem apenas duas ou três gotas de sangue dentro da boceta; outras têm também um pequeno ou grande grito; algumas têm sangue suficiente para uma Segunda defloração; algumas têm já um óvulo à espera, outras têm antes do óvulo uma cartilha e um àbaco; algumas têm amor, outras um encharcado bilhete azul; algumas têm restos de esmalte de unha; algumas não têm nada dentro, nem mesmo hímen, são completamente ocas e não causam a menor comoção ou remorso. Mas como será então a de Rosa? Que haverá logo após a placa onde eu lia “cuidado com o cão!”? Talvez haja estrelas de primeira grandeza, talvez o espírito de alguma puta enforcada, ou um abismo no qual seu homem se estatelará mil vezes; ou talvez haja simplesmente luz, paixão e alegria – um raro diamante que eu joguei ao lixo como se fosse vidro.
Sou jovem, muito jovem e até hoje fracassei em tudo. Fracassei como estudante, fracassei como filho, fracassei como irmão, como amigo, como vagabundo, cafajeste, amante e até como homem; mas o meu fracasso maior, talvez pai de todos os outros, foi não ter levado Rosa para a cama, foi não Ter sequer tentado. Pois eu a amava como qualquer idiota comum, ou até mais, eu a amava como amava um idiota qualquer do tempo dos românticos. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, jamais passou pela minha cabeça imaginar que ela pudesse ter uma boceta, por menor que fosse; e só agora, mais de um ano depois dela ter-me deixado sozinho no meio das feras, comecei a ter alguns sonhos obscenos com ela. Felizmente, embora hoje a ausência dela me angustie um pouco (angustia-me mais saber que ela está com um imbecil), na época não levei nosso caso a serio, o que foi minha salvação, meu Cristo. Se eu a tivesse levado a serio, ela e suas palavras e suas cenas de ciúmes, fatalmente teria estourado meus miolos...
As ruas desertas e em completo silêncio... o ronco do motor de um carro pode ser o alarme para uma chacina. E eu aqui, em meu subterrâneo, divagando a respeito de Rosa enquanto penso em outras mulheres. Só mulheres – por quê? Porque não há nada mais no que pensar, não existe outra coisa que não seja deprimente ou mesmo desesperadora. Não há mais possibilidade de conquista porque não há o que conquistar. Não há nada que surpreenda: um homem entra numa escola e fuzila cinqüenta crianças, enquanto na casa de outro a polícia descobre quinze cadáveres de adolescentes; e o único motivo de espanto é saber que isto já se tornou banal. Um dia o homem desembarcará no centro do sol e isso não provocará nem surpresa, nem rugas na testa. O último assombro foi a bomba-atômica. Hoje a maior conquista de um homem é um bom emprego burguês e dinheiro suficiente para comprar um par de guarda-costas; e que se dane a salvação das florestas, das baleias azuis e dos direitos da criança. Falimos moral e espiritualmente, atropelamos qualquer coisa que se intrometa entre nós e o nosso dinheiro. Eles faliram... nós somos os frutos podres de suas árvores contaminadas pela praga. Não pensamos, não queremos, nem cremos em nada; apenas damos vazão ao nosso latente instinto de anarquia, sexo e violência. Somos o que foi feito de crianças as quais nada ensinaram. Sóbrios ou não, nós saímos, fodemos e voltamos para casa; depois saímos novamente, , fodemos outra vez e não voltamos para casa até que o sol nasça e anuncie um novo dia igual; então dormimos, acordamos e de vez em quando nos sentamos na privada e sonhamos com um mundo diferente...


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