quinta-feira, setembro 27, 2001

A MEU TIO QUE MORREU LOUCO

Dobram os sinos por aquele que morreu cedo.
Ou não?

Quando jovem talvez fosse cheio de vida,
Mas não tenho certeza.
Conheci-o na meia-idade,
Quando os remédios para a tuberculose já o haviam deixado louco –
Diagnóstico: esquizofrenia paranóide.

Pequenas doses de Diasepan o faziam dormir à noite.
Aposentadoria por invalidez,
Pequenas obras em casa,
A voz bonita no coro da igreja,
Os estudos bíblicos,
As visitas a minha mãe nas tardes de sábado,
Um casamento equivocado,
O fim do casamento equivocado.

A primeira grande crise,
E o homem mais gentil e doce que conheci
Tornou-se agressivo e vagava nu pelas ruas.

Grandes doses de Diasepan já não o faziam dormir à noite.
Mas em seus intervalos de lucidez voltava a ser o Tio Benfica
Que sorria e dizia, com lágrimas nos olhos, que o Senhor o havia curado.

Várias internações,
E em meio ao tratamento sub-humano ele panfletava a Palavra de Deus
Entre loucos e enfermeiros.

Por fim,
Um derrame cerebral,
Alguns dias de agonia na emergência superlotada de um hospital público,
E hoje, o encontro com a Morte:
Inchado,
Semiparalisado,
Esquecido
Solitário como sempre fora,
Dormiu finalmente.

(Nunca um amor verdadeiro,
Nunca uma noite ardente,
Nunca uma gota de álcool,
Nunca uma palavra áspera,
Nunca uma ocupação digna.
A morte, cura para a doença que lhe matou a vida.)

14 de março de 2001,
55 anos.
Os sinos dobram por aquele que morreu cedo?
Não.
Morreu tarde aquele que nunca viveu a tempo...