domingo, outubro 28, 2001

Minha mãe é uma grande pessoa, aliás, como todas as mães; o que penso a respeito dela é o que pensa qualquer filho grato. Dona Thereza, costureira aposentada, fez muito serão para alimentar a todos nós quando crianças. Lutadora, veio sozinha de Minas Gerais, aos onze anos, para ser babá em casa de gente rica. Teve passagens didífeis na vida, mas nunca pensou em desistir - talvez devido à sua grande religiosidade. Mas essa mesma religiosidade me irrita constantemente. Falei com ela a respeito das dezessete luas de saturno e dos bilhões de sóis que existem no universo, mas ela insiste em dizer que existe um sol e uma lua, "pois foi apenas o que Deus fez, o que está na Biblía". Acho que ela nem acredita que exista o planeta Saturno, uma vez que ele não é mencionado nas Sagradas Escrituras.
Na rádio evangélica que ela ouve diariamente - cujo proprietário é um político comprovadamente corrupto - os locutores, escolhidos por Deus e absolutos donos da Verdade, golfam ininterruptamente verdadeiras barbaridades, como dizer que as Olimpíadas são uma coisa do Diabo, simplesmente porque se utiliza a expressão "espírito olímpico"; os espíritos são todos demônios, inclusive o espírito olímpico. As golfadas continuam: "Que imoralidade as tvs terem mostrado a cerimônia de casamento de dois homossexuais!", "os dois beijando-se na boca! uma coisa dessas entrando nos nossos lares!", "é o Diabo!". Os homossexuais, o beijo na boca, a tv - tudo isso é coisa do Diabo.
E esses locutores, os salvos, têm milhares de ouvintes, na maioria pessoas semi-miseráveis, iletradas e tremendamente, humildemente ingênuas que crêem em qualquer um que lhes prometa uma mínima melhora de vida. E é aí que entra o bem forjado esquema das igrejas da prosperidade, onde quem prospera, e com o mínimo esforço, são os grandes pastores, profissionais do ramo, com seus ternos bem-cortados cobrindo-lhes a gorda pança, a pança cheia de prosperidade, discursos, amido, proteína colesterol e bile, tudo sossegadamente digerido enquanto os leões-marinhos seguem o caminho de casa à bordo dos seus automóveis conversíveis ou importados. Leões-marinhos... "Homens de Deus". O pequeno fiel volta andando para casa, tropeçando em dejetos de cães e pedindo ao Altíssimo que sua desgraçada vida melhore. E os leões-marinhos torcem para que melhore mesmo: dez por cento.
Observo tudo à distância. Pouco me importa quem engane ou seja enganado. Muitas vezes, é verdade, tenho vontade de acertar a cara de quem explora velhinhas de oitenta anos; e outras vezes me sinto vingado ao ver pessoas que se consideram muito espertas sendo vítimas dessa forma de extorsão do tempo dos sacerdotes egípicios; mas a maior parte do tempo permaneço abstêmio. Parece que tudo caminha para o Fim. Mais dia, menos dia o planeta vai-se cansar e nos engolir a todos e cuspir fora nossos ossos; e só restará de nós uma inútil internet. Os pombos farão seus ninhos em assombrados terminais de video, e os gatos enterrarão o que é seu no que restou das gordas panças dos leões-marinhos...

Paralelas

Aparento ser pouco,
E sou somente do que aparento.
A outra metade, como meu sonho, acordei-o
Enquanto me punha a dormir do sono do meu amor complexo.

A olhos sem luz sou um,
Mas quem me enxerga (se alguém me enxerga)
Sabe que eu que existo e minha metade que durmo
São linhas retas que nunca se cruzam...

sábado, outubro 27, 2001

Guerras, pestilência, fome, efeito estufa, racionamentos aqui e ali... E, apesar disso, aqui no meu fim-de-mundo não há nada. Minha Angela está lá embaixo e não apareceu até agora. Andei vendo umas fotos pornográficas e fiquei com vontade de foder com ela na escada do apartamento. É engraçado o mecanismo que desperta nosso tesão... É uma pena que ela esteja menstruada. Para esta noite, uma foda trivial, talvez duas - e mesmo assim estrelas de quinta grandeza cairão do céu...
A rua. Sexo a esmo, pólvora nas mãos, socos na cara, poesia real, perigo iminente, dinheiro em pó, inspiração para cem mil páginas, a beleza da degradação, o Novo à cada amanhecer, a loucura que inspira, o desespero que expande, sempre uma dose a mais... Troquei tudo isto por ela, por Ela, que é Angela, que é bebê e louca e mãe e escrava. Foi uma escolha, e às vezes ela teme que eu me arrependa, acha que não é para depois do sempre; mas eu sei. Fui um vôo alto e louco, um kamikase do Imperador, mas a conheci e saltei de pára-quedas segundos antes do choque final. Hoje sou um operário de fábrica, que numera dois milhões de cédulas de Um Real de segunda à sexta-feira, com poucos sonhos, quase vencido; mas mais feliz que em qualquer época de qualquer vida.
Felicidade? Este cheirinho de batata-frita no ar...

domingo, outubro 21, 2001

Agora só sábado. Que merda! Preciso ter logo o computador em casa.

O passado pior
É aquele que não quer morrer.
Há arqueólogos dentro de mim,
Na minha memória,
Descobrindo o que soterrei
Numa poeira de séculos...

Tédio absoluto, o mais completo
E é dele que vêm os melhoeres pensamentos.

Acordei às quatro da tarde.
Os olhos vermelhos, o joelho direito inchado
Sem qualquer motivo aparente
E o mundo pequeno, mínimo, nanico.
O mundo é tão grande que cabe todo na rótula
Do meu joelho hoje inchado.

O Mundo, Brasil, Rio de Janeiro,
São João de meriti
Com seus carros, mendigos, buracos no asfalto,
Casais que namoram,
Loucos que perambulam e querem ficar nus,
Religiosos panfletando a usuários de maconha...

São João de Meriti:
Tão pequeno que cabe no Mundo
Que cabe na rótula do meu joelho
Hoje inchado.

A igreja canta.
No céu explodem fogos de artifício,
E não tenho para quem representar
- Quem me dera platéias e teatros dentro de mim!

Sobre o terraço da minha Realidade há Céu,
Mas não há horizonte.
Do televisor, a voz feminina de um anjo me fala:
- Desista.
Mas eu não desisto.
Por alguma força alheia a mim ainda estou de pé
E quero ser uma tempestade.

Domingo de tédio...

Imagens

As vidas que não vivi
Supri-as com as que inventei;
As imagens que não vi
Fitei-as com olhos de Rei:

As cores em tons pastéis
De uma paisagem de Agosto;
Camas em quartos de hotéis,
Eterno estigma em meu rosto...

Cadafalsos em dourado
Para a morte de um instante -
Em redor do condenado
Uma multidão ululante...

Olhos de cobras mortais,
Venenos que matam feras,
Esqueletos de animais
Extintos em outras eras...

As peças de Deus em xeque
Na partida contra o Fim,
Num tabuleiro qual leque
Gravado em cima de mim...

Um mapa-astral incompleto
Da criação do Universo...
Salão tornado repleto
Para leitura de um verso -

Verso de um poeta louco
Que sabe que enlouqueceu,
Mas que entanto acha pouco
Tudo que lhe aconteceu.

A Sorte a ir pelas ruas,
Procurando por alguém...
Lindas prostitutas nuas
Cobrando menos de Cem!...

Vagas frases sem sentido,
Mas que dão valor à vida
De um artista ressentido
Com sua fé dividida...

Corações sempre trancados
A quem não lhes faça mal...
Um velho cantor de fados -
Melodias sem igual...

(Imagens de infância boa -
Quadros que a memória pinta:
A cor verde da lagoa
E do gramado da Quinta...)

Olhos verdes de uma ruiva
Que tantas vezes vi nua...
Um lobo que, à noite, uiva
Querendo alcançar a Lua...

Fotografias sem data,
Velhas cartas destruídas -
Um veneno que não mata
Esquecido por suicidas...

Delírios de Além e Noite
Que me impedem de dormir,
Alucinações-açoite
Que a sonhos fazem fremir,

Visões de Espuma, de Cor,
Mas palpáveis como Aço -
Imagens de um Rei-Ator
Que hoje assisto com cansaço...

Tudo normal. O templo evangélico fazendo um barulhão; Um monte de crianças jogando videogame na televisão ligada no portão de casa; rostos vazios comentando a última rodada do Campeonato Brasileiro; bares lotados; solteironas à porta de casa comentando sobre a semana na tv; minha mulher dormindo com massagem nos cabelos encaracolados. E eu aqui, ouvindo Grunge Rock e pensando nas merdas que já fiz na vida. Passado passado a limpo, Futuro inimaginável. Às vezes tenho vontade de vagar por outros corpos e consciências. Vida que segue...

Adolescência
À noite, a maioria dos caras havia ido ao baile. Hércules, Tico, Preto e Eu estávamos sentados defronte uma casa velha, com paredes que mostravam o que restava da pintura cor-de-rosa de mais ou menos quarenta anos. Tico, meio louco de maconha, divagava sobre ser convocado para a Seleção Brasileira, um papo sem sentido,quando foi abordado por uma mulher de meia-idade, loura e gorda, com uma barriga horrível, enorme e caída, que disse precisar de pó. "Cadê o dinheiro?", disse Tico, "sem dinheiro, sem pó". A mulher queria pagar fodendo com ele. "Então vai ter de dar pros meus amigos também, e tem mais: Vai ter de dar esse cu!", disse ele, com intenção de espantar o monstro. Mas a mulher topou sem a menor cerimônia e pareceu até empolgada.
O marido estava bebendo num boteco qualquer, então haveria tempo. Tico foi o primeiro, pulou o muro enquanto vigiávamos do lado de fora. Cerca de dez minutos depois estava de volta, suspirando com ar cínico: "Buceta é sempre buceta..."
fui o último a pular. Entrei no quarto fedorento e sujo, a baleia me sorriu mostrando um incisivo de ouro. "Chega mais, criança", ela disse. Ao ver aquilo, aquela mulher-montanha, arreganhada e suja com o sêmen de outros três membros, senti um nojo terrível. Fiquei paralisado por um instante e um milhão de imagens podres assolaram minha mente - baratas se acasalando, gatos atropelados, hienas comendo um cadáver acéfalo, uma ave comendo carrapatos, essas coisas... A mulher virou-se e empinou a bunda, uma velha e branca casca de laranja-bahia. "Buceta é sempre buceta", eu repetia comigo mesmo as palavras de Tico, enquanto subia nela e tentava terminar logo com aquilo.
Enquanto eu levantava as calças, a mulher me perguntou pelo "branquinho". Imediatamente pulei para fora da casa, e nós quatro desaparecemos dali, pois Tico não tinha pó algum...
O Comedor de Mariolas

Verdade! Tudo se resume ao Nada...
E hoje, desperto, nada mais espero,
Nada mais dói - não mais me desespero
Pela minha antiga Ânsia estabanada.

O Pesadelo já não assusta - é um mero
Traque na minha campina minada;
O Sonho já não brilha - é a Paz finada
Que experimentei no Momento-Zero...

Sou o que sobrou no casarão escuro:
Poeira retida em velhas vitrolas -
Cotão-Memória pra alguém do Futuro...

Que hoje pareço um boneco sem molas:
O Desastrado de coração duro,
O Farto, comedor de mariolas...
Lendo o blog de Camilaum descobri mais um pessoa atéia. Também fui ateu', até os 24 anos. Até a madrugada em que meu amigo Marimba e eu estávamos caminhando pelos trilhos da linha férrea. Após o baile, era costume fodermos as garotas ali quando não tínhamos dinheiro para motéis - o que acontecia quase toda semana. Mas naquela noite estávamos apenas de passagem, quando um ou dois caras começaram a atirar em nossa direção. Não sabíamos se eram traficantes, guardas ferroviários, ou membros de uma galera rival. Mas corremos; corremos desesperadamente, com lágrimas nos olhos e o coração na boca; corremos até a cancela mais próxima, depois até a esquina mais próxima, depois até chegarmos em casa. Quando paramos, Marimba estava escalpelado. Uma bala tinha passado milimetricamente apenas o bastante para lhe arrancar os cabelos. Não pode ter sido sorte. Se estamos vivos ainda, foi por vontade de Deus.
Mas Ele não quer que deixemos de aproveitar a Vida. Ele só quer Amor. Viemos ao mundo para amar. E eu sigo amando, na medida do possível...
Como será o Amanhã?
Sigo construindo meu Futuro
Com o que ainda resta de minhas esperanças...

sábado, outubro 20, 2001

Primavera

Noite de outubro e Sol em Gêmeos.
Enquanto Morrison canta, a tv exibe o fundo azul celeste.
Lá fora a chuva é uma jovem mãe gotejando dos dois seios.

Estamos todos dormindo.
Amanhã, ao acordarmos sob o céu nublado,
Ao som de música descartável
O videotape de nossos olhos gravará as novas cenas de violência do nosso habitat.
Amanhã, não haverá muito por que viver em meio a tanta indignidade e feiúra,
Mas nós insistiremos...
Quão teimosos nós somos!
Cada um de nós encontrará um bom motivo para continuar vivendo -
Drogas, bebida, sexo, religiões, revoluções...
Eu também tenho meu motivo:
Os olhos negros de Thaís são brilhantes como uma noite de lua...
Morte

Morte era um menino.
Era um pequenino e magro comerciante
De uma vaga alegria chamada Cocaína.

Morte tinha uma jovem amante ruiva de olhos cor-de-mel,
Mas não fazia outra coisa
Senão vender e usar alegria.

Uma noite
(Era Domingo das Mães),
Um carro,
Três tiros
E Morte de bruços na calçada.

A morte o levou
E o vento soprou e diluiu sua alegria
Em seu sangue...

quinta-feira, outubro 18, 2001

Estou escrevendo do trabalho. Através da porta de vidro, as peões da fábrica se parecem com mortos-vivos que vimos num filme que nos causou pesadelos na infância...
Estou atrasado, meu trabalho não me dá tempo para estar vivo. Aqui, sou um cadáver sem lápide, nem epitáfio. Será que jamais saírei da Casa da Moeda?

quarta-feira, outubro 17, 2001

Nossas músicas loucas,
Nossos poemas loucos,
Nossa vida louca,
Talvez começando a fazer a História...
Fábrica

Barulho.
Somos homens e mulheres azuis
Trabalhando como formigas com dores na coluna.

Barulho.
Mas na verdade somos
Filósofos,
Poetas,
Desenhistas,
Matemáticos,
Cantores,
Pregadores,
Missionários,
Comediantes
E há muito tempo tínhamos no rosto um olhar sincero de criança.

Barulho.
Na fábrica,
A máquina vale dois milhões de Dólares.
Nossas vidas?
Um pouco de tendinite,
Um pouco de hérnia de disco,
Um pouco de miopia,
Um pouco de surdez,
Um pouco de depressão,
Um tiquinho de psicose
E,
De vez em quando,
Perde-se um dedo outro.

Mas o Patrão não deixa que fique tudo por isso mesmo:
Ganhamos 20% do Salário-Mínimo a título de insalubridade...

segunda-feira, outubro 15, 2001

Sinceramente, é reconfortante estar aqui. Silêncio e uma aura de paz estão ao meu redor. Sinto-me irresponsável, livre, com o dia inteiro pela frente - e é disto que eu gosto.
Hoje é dia de um movimento grevista, um movimento tolo e sem qualquer razão de ser. Os que estão comigo, ao meu lado, "companheiros", acreditam no propósito do que estão fazendo. Eu não, falta-me a credulidadee sobretudo a ignorância. Sou um cínico. Estou aqui porque não gosto de trabalhar e porque gosto de observar os fatos humanos. Não tenho ilusões, senão as românticas: nenhum movimento coletivo jamais gerou resultados concretos, mas o homem que, sozinho, assaltou o trem-pagador está rico até hoje. Luto, isoladamente, por mim; por mim e pela mulher que amo. E mais: luto quando luto. A Vida não deve ser luta, mas diversão; não deve ser tensão, mas sim alegria. Sou um homem feliz porque tenho um cérebro que pensa, um coração que ama e uma pica que fica dura quando ouço a voz da mulher que amarei pelo resto dos meus dias. Amo a Deus e a Vida me pertence; uma vida que se pode acabar a qualquer momento.
Há momentos em que o Sentido da Vida me cai sobre a cabeça, como merda de pombo. Estou feliz porque sinto-me livre e assim me sinto Eu-Mesmo. Estou livre, ao menos por hoje, e este momento de epifania de alma vale muito mais que os Quinze Reais de aumento que são a desculpa para eu estar aqui.

domingo, outubro 14, 2001

Agora só estarei por aqui na semana que vem. Até lá me enviem um email com comentários, assinem o guestbook, xinguem-me, amem-me, qualquer coisa...
Segundo Poema do Lunático

O Lunático já não reina sozinho
Na Rua da Noite.
Agora, outros, meninos e meninas, vagueiam sob o luar
Voando às cegas como morcegos
Ouvindo o canto dos gatos no cio.

Passatempos e vícios nos ajudam a ultrapassar o dia.
O cair da noite nos reúne em redor da fogueira moderna,
Como nossos ancestrais índios.
Uma jovem índia drogada e nua dança a Dança da Morte -
Seus olhos já choraram todos os sonhos impossíveis
E esta é sua última alegria.
Cantamos, dançamos e sorrimos sem saber por quê...

De madrugada, os que se esgotaram estão na cama
Sentindo o prazer de não sonhar com coisa alguma.
Apagada a fogueira, os que ainda restam estão espreitando,
À espera de algum sexo que os esgote finalmente
Ao menos por esta noite.

É uma época louca, muito distante de ser o Fim.
Não temos destino; nosso futuro não está escrito nas estrelas
Nem nenhuma conquista tecnológica há de nos mudar a vida.
Sobrevivemos de pequenos anti-milagres
E talvez não agrademos a Deus.

"- Esse é o submundo." - dirá a dona-de-casa ao nos assistir no documentário na tv.
Mas o rancor, ou o nojo, ou o medo, ou a compaixão dela não trarão de volta
As crianças que abortamos com quatro drágeas de um remédio contra úlcera.

Sim, os bebês que fazemos dissolvem-se como pequenos tumores...

A mulher acorda às três e meia da madrugada
Para sustentar-se e a seu casal de filhos:
O rio não deixa de correr à noite,
Por que, então, o Lunático dormiria?
Chuva

Lá fora,
Uma chuva miúda,
Quase imperceptível.
A felicidade não existe a uma hora da manhã.
Houve um tempo em que saíamos para foder.
Houve um tempo em que até fizemos amor.
Houve um ano em que a Amizade era verdadeira,
Inteira e Real;
Um ano em que havia risos e lágrimas.
Agora não existe mais nada
- Nem mesmo lágrimas.
Ficou tudo lá fora
Na chuva que aumenta em barulho,
Mas nunca chegará à minha cama.
Beijos e lágrimas.
Quem era aquela com quem me encontrei três vezes
Nos últimos dez anos?
Quem era aquela menina que vi num pagode
E depois vendendo salgados num tabuleiro?
Quem era a mulher que me olhou e reconheceu na festa na Matriz?
Quem era a mulher com o mesmo sorriso e os mesmos belos olhos apertados,
De mãos dadas com um marginal?
Quem é ela cuja imagem, como chuva, cai em meus pensamentos
E meu coração?
Por que me olha?
Os meus heróis estão mortos.
Meus inimigos estão nos corações das mulheres
Que possuo.

Talvez eu devesse parar com a vida
- Masturbar-me e dormir,
Ou talvez cruzar com minha fiel cadela,
Ou abusar de alguma menina de dez anos...
A pena para todos os crimes jaz dentro do coração humano.
O grama de cocaína tem utilidade,
Mas qual a serventia do meu canto?
Ninguém quer ouvir sua voz, ou solucionar seu problema.
É cada um por si e Deus com pena de todos.
defenda o que é seu, ou seja currado
E fume um cigarro de maconha pra esquecer
Ou acreditar em discos-voadores.
É cada um por si.
Equilibre-se com sua dose de Lexotan ou cola de sapateiro,
Mas saiba que não se caminha sob o arco-íris
E ao acordar sua cama estará sempre cheirando a esperma
E seus cabelos a mofo.

Eu não tenho identidade e vou ter de trabalhar
A vida inteira,
Até me afogar no suor do meu rosto
Vazio.

Lá fora,
A chuva miúda cai para ninguém.
Qual o nosso futuro?
Qual o futuro de Elaine?
Elaine só tem dezesseis anos...
Qual a serventia do meu canto?
Eu canto para dormir.
Durmo pra não sonhar...

Quem me dera poder esperar.
Meu Deus! Uma homenagem a Renato Russo no Faustão, com Alexandre Pires! Algum fã do Legião o mate, antes que ele comece!
Desliguem as tvs! Desliguem o microfone! Desliguem a vida!...
Minha mulher chorou vendo Faustão... Ah, meu Deus!...
Notícia do Jornal O Dia: "Fulano de Tal, segurança, terminou o expediente e se dirigia à praia onde fazia um bico, vendendo queijo. De repente...PLAFT! Um suicida se atirou do oitavo andar de um apartamento e caiu bem em cima do sujeito, Fulano. Morreram os dois."
O corpo de Fulano ainda ficou não sei quantas horas estirado na calçada, até que os bombeiros o removessem.
Hamlet tem razão, não somos nada. E o Destino é um deus implacável...
Não tenho a menor idéia de que horas são. Na tv, Hamlet observa algumas caveiras e chega à conclusão de que não somos nada e no final fedemos. Ao meu lado, minha mulher dorme. Suas mãos estão tensas, seus cabelos estão quentes, seus olhos estão sonhando. Não sei se ela dorme em paz.
Faz calor e faz frio no horário de verão. Estamos nus sob o edredom. Abaixo do umbigo, tenho um membro duro como um osso, mas não a foderei esta noite. Horas atrás, a buceta dela me deu uma piscadela e me disse bem baixinho que precisa descansar.
minha vigília é vigiada de perto por uma planta sem nome, contaminada pela bactéria Antrax. foi uma prostituta em outra vida; agora agoniza à espera de um super-herói imbatível de olhos cor-de-mel.
Cleópatra executa a dança-do-ventre dentro do meu espelho, meu espelho esverdinhado. o espelho esverdinhado que é minha alma ancestral. Quantos mistérios ao redor. A cabeça da rainha é servida numa bandeja ao lado da de João Batista. Seu cérebro tem gosto de cobra. Salomé sacode seu chocalho; Herodes olha ao redor caçando um novo alvo. Ele me fita. Parto o espelho para não ser a vítima da vez.
Onde está o banquete prometido?
Homesick. O responsável por Cornetas Alucinadas toca trombone numa banda chamada Homesick. Ainda não fiz download do som, mas a mistura de guitarras distorcidas com instrumentos de sopro, a princípio, me agrada.
Houve uma época em que propuseram transformar alguns de meus poemas em letras de rock. Mas isto foi há muito tempo. Hoje sou um velho senhor de 26 anos, que está mais para Mano Brown do que para Kurt Cobain. Destino. Seja como for, a vida segue. Nesta vida inglória, cada um com sua glória. Quem sabe, Homesick um dia venha-nos salvar dos Belos, Brunos e Marrones, Travessos e Alexandres Pires da vida... Amén!

sábado, outubro 13, 2001

Retiro o que disse sobre o poema estar sem créditos no Cornetas Alucinadas. Estava com um link para cá...

sexta-feira, outubro 12, 2001

Mário de Sá-Carneiro. "Chora em mim um palhaço às piruetas". Jim Morrison. "We need great golden copulations". The Doors. Cazuza (mesmo as músicas bobas). Raul Seixas. Mitologia. Mahabharata. Batata-frita. Shakespeare. DragonBall Z. Arnaldo Jabor.
Fernando Pessoa. "Dá-me mais vinho que a vida é nada". Horas e horas na internet. Imagens Eróticas do uol. Henry Valentine Miller. "Bucetas que riem e bucetas que choram". Beatnicks. Blogs interessantes. Chá de Camomila. Salvador Dalí. Van gogh.
Fluminense. Beijos na boca. Sexo louco. Os Normais. Dinheiro no bolso...
Sensacional! Rodando sem destino por aí, encontrei um poema meu - ÀS QUE SÃO COMO ELA - num blog chamado CORNETAS ALUCINADAS. Lá estava meu poemeco, sem creditos, sem nada... Quererei glória maior? Palavras minhas tocadas como música por algumas CORNETAS ALUCINADAS!
Leio posts para me distrair. Sendo diários, espanta-me o quanto as pessoas omitem o sexo de seus quotidianos. Vai-se ao cinema, vai-se à faculdade, vai-se à palestra; nunca fodem, ou transam, ou trepam, ou fazem amor, ou seja lá como queiram chamar o-que-todo-mundo-gosta.
Se fosse assim, como eu poderia dizer que minha mulher praticamente me obrigou a lamber-lhe a buceta até gozar, antes de me deixar acessar a internet?
Agora ela dorme, linda, feito um anjo. Angela-Anjo. Angela-Anjo-Mulher. Angela-Anjo-Mulher-Gostosa. Angela-Anjo-Mulher-Gostosa-Minha. Angela-Minha.
Um calor abafado. Uns bêbados caídos pelas calçadas, outros cantando num videokê. Os ônibus passam velozes e sopram poeira pela janela do meu quarto. É preciso fechar as janelas antes que anoiteça, ou os mosquitos não deixarão minha mulher dormir. Gostaria de assistir a um novo filme sobre vampiros com John Malkovitch, mas preciso economizar dinheiro para construir minha casa de dois cômodos. É engraçado, não conheço uma pessoa que saiba quem é John Malkovich; não têm tempo para sabê-lo, estão ocupados demais sobrevivendo...
Em última analíse, toda esta guerra no mundo aí fora nada tem a ver comigo. Se morrem pessoas nas guerras e isso é triste? Sim, é verdade. Mas eu moro no subúrbio de uma cidade perdida no espaço e no tempo, onde pessoas morrem a torto e a direito todos os dias. Há algum tempo, meu amigo Morte morreu com um tiro bem no meio da cara. Há alguns dias, meu amigo chamado Príncipe morreu com vários tiros no meio da cara. Ele ainda se ajoelhou e suplicou por sua vida, mas o Extermínio não teve dó.E, embora testemunhas oculares, nós nada vimos nem ouvimos o estampido dos tiros. Assim nos mantemos vivos... Morte e Príncipe eram viciados em drogas, mas isto pouco importa - a morte é triste, seja de quem for. Mas estas mortes não passam nos televisores em cadeia mundial. Estas mortes não foram ordenadas por Bin Laden ou por Bush. Foram ordenadas pelo Estado omisso, que não tem nome e pouco se importa se os meio-negros e pobres estão se matando por pó de Quinze ou de Vinte Reais. O fim trágico de Morte e Príncipe, estas sim são mortes triste de uma guerra a qual assisto ao vivo. Não são pontos luminosos numa tela verde e borrada do outro lado do planeta; são imagens bem nítidas, tridimensionais, com som estéreo. Morte dos amigos de infância... este é o nosso Apocalipse real, imediato.
Mais um PLANTÃO da Guerra a qualquer momento...
Minha mulher dorme, bela com seus cabelos desgrenhados, enquanto escrevo. Ela sempre fica com sono quando me sento em frente ao computador. Apenas enquanto dorme, suporta meus finais de semana. Amo-a mesmo assim...
Para quem lê este blog, explico que ele não é sempre atualizado porque só tenho acesso ao computador nos finais de semana.
Não temo a Guerra,
Não temo o Fim-do-Mundo,
Não temo o Antrax.

(Deixo pedaços meus por aí,
Como sonhos que vou esquecendo)

Estarei vivo enquanto estiver morrendo...
Odeio motéis. A palavra motel lembra-me a palavra morte. Morte do Amor. Morte da Inocência. Morte do Inesperado (e o inesperado é a Vida!). Motel é foda, é pau entrando na buceta, na boca e no cu; nada mais do que isto...

domingo, outubro 07, 2001

Estes Versos
(Poema de Cinco Anos atrás)

Tenho a noite toda para escrever estes versos,
Porque o meu ecstasy não apareceu e estou aqui,
Sábado, solitário quase apagado
Assistindo a uma atriz loira de enormes seios americanos contorcer-se num filme de gosto duvidoso.

Tenho a noite toda para escrever estes versos.
Os meus amigos, concidadãos, estão todos lá fora
À procura de fumo, pó, vulvas e diversão.
Faz um pouco de frio hoje e daqui a cinco anos metade deles terá morrido
Assassinada, ou de overdose, ou de complicações decorrentes da aids.
Melhor para eles. A metade que restar,
Viva, resultará em coisa nenhuma.

Da vida nada se leva, e eu
Tenho a noite toda para escrever estes versos.
O meu Amor caiu na rede da religião,
A minha mulher agora tem tesão num menino de quinze anos,
A minha alma-gêmea está andando por aí e nunca nos encontramos,
A minha geração não tem expoentes e está ocupada com modismos, artistas descartáveis, aparelhos de ginástica e o culto ao corpo, à saúde e ao politicamente correto.
Tenho a noite toda para escrever estes versos
E quero viajar, beber, beijar, arranhar, morder, gozar, chorar, sorrir
E nunca morrer.

Tenho a noite toda para escrever estes versos
E minhas verdades.
Sou um jovem do subúrbio do olho do fim do mundo,
Sou indigente, insano, sujo e grosseiro
Mas amo o Universo e quem nele habita.
Domingo à noite

Os pais de família estão em casa
Assistindo tv;
Os evangélicos foram ao templo;
Quem é de beber está pelos bares,
Os viciados viajam,
Os casais de namorados fazem seus programas
- Os que não têm programa estão na varanda
Ou na garagem...

(No domingo à noite
Termina o que começou no sábado)

Enquanto isto, alguém solitário lê o jornal de ontem...

Às que são Como Ela

Este vai para elas.
Para as que tem mais de trinta anos
E já sofreram à beça na vida.

Para as que tiveram um casamento desfeito,
Outro casamento desfeito,
E ainda assim jamais se casaram.

Para as que tiveram uma filhinha
Que nasceu morta.

Para as que são belas e brancas quase como a neve
E têm longos cabelos castanhos,
Mas, de tanto trabalhar para manter a casa e o filho,
Ficaram com pernas varizentas.

Para as que criaram barriga
E so fazem sexo no escuro absoluto;
Sentem-se velhas e solitárias
E, vez em quando, bebem e bebem e bebem
Bebem para esquecer.

Este vai para elas.
E que seja uma mensagem simples e sincera
Como uma flor do Dia dos Namorados,
Verdadeira como um sorriso de criança
E que lhe façam saber
Que qualquer dia desses um homem vai sentar-se a seu lado
Num ônibus a caminho de um insosso dia de trabalho,
E ambos estarão apaixonados
como num filme que a gente nunca viu mas ouviu falar.
Porque o Amor é isso aí.
Este é o aguarde.
Não minta,
Nem diga mentiras verdadeiras,
Nem diga verdades demais.
O Tempo passa.
A Vida me leva sonhos e pêlos -
Não existem bens duráveis...

sábado, outubro 06, 2001

Tenho sono de mim...
Seus novos cabelos
Não ouvirão
Minhas palavras desconexas.
E por não me haver amado,
Você nunca saberá meu verdadeiro nome.
Hoje, no dia mais triste,
No mais triste de todos os dias,
No dia que consagra minha falta de ação,
A minha vida escorre
Como dos seios de uma mãe adolescente...
Expediente

Volta e meia minha mulher se flagra lembrando bons momentos que teve com o antigo marido. Como vingança, tento lembrar de algum bom momento que tive com a outra mulher que amei; mas procuro dentro de mim e não encontro nada. Procuro então algum bom momento com qualquer outra mulher que eu não tenha amado, mas tudo que me vem à mente é uma ou outra foda memorável.
Não tive bons momentos, senão sozinho. Isto é triste, como triste será o momento em que ela lerá este texto. Mas não me importa - não posso-me importar. Este é o tempo próximo ao fim-do-mundo. O tempo em que a Verdade não pode ser mascarada, nem negada, sob pena de arder a alma em chamas eternas...
Expediente

Esta manhã, Deus mostrou-me sua cara. Quando isto acontece, é um sinal de que as coisas não vão bem.
(Novos castigos para o mesmo crime)
Minha fé já não é a mesma...

quinta-feira, outubro 04, 2001

Como era de se esperar, o mundo não acabou...
Não me perturbem. Não é a Existência, é um Sonho, ou pouco menos que isto...
Estou aqui, vestido de azul, por um erro. Opero uma máquina que fabrica motivos de morte. Sou parceiro de uma loura cujos seios são duas enormes células mortas. Estou de costas para ela, como estou de costas para tudo. É uma guerra, atacam-me sempre por trás. Minha Linha Maginot também mostrou-se uma muralha inútil. Diariamente assino um documento de capitulação a um mesmo General.
A máquina possui sentimentos humanos. Eles trabalham como robôs, aguardando por uma foda mecânica após o pagode de sexta-feira à noite. O chão está repleto de serpentes e copinhos de café. A mulher das células mortas tem serpentes no lugar dos cabelos. A medusa é irmã espiritual de uma paraíba corcunda, que tem os dedos anelares duas vezes maior que os demais e prefere o sexo anal.
A lavadora de pratos faz sexo nos finais-de-semana com um homem oito anos mais jovem, mas ama outro, mais jovem ainda. Ela corta a palma da mão numa faca e chora. Suas lágrimas são azuis, sua irís torna-se dourada. Um homem, vestido de azul como eu, desiste dos argumentos e tenta enfiar a Bíblia pela goela abaixo de uma Testemunha de Jeová. Sua voz é estridente e irrita a todos. Dentro de um minuto será soterrado por uma avalanche de revistas. É a força do pensamento. Já estou em outro lugar. Minhas mãos estão quentes e cheiram mal, como um ovo recém saído da cloaca. Tudo na vida começa ou termina numa cloaca. Não há telefones disponíveis num raio de treze mil quilômetros, mas eu aguardo ansiosamente um telefonema do meu passado.
Estou cansado dos seres humanos com os quais sou forçado a conviver, principalmente das mulheres maduras que me tratam como se eu fosse um bebê com pênis de adulto. Não houve semana em que alguma delas não tenha proposto levar o pênis (hoje estou com um vocabulário científico) do bebê para passear num motel qualquer da Avenida Brasil. A maioria mulheres casadas - e, como as putas, é possível fazer o que quiser com elas, mesmo o mais baixo nível de degradação. Talvez existam mulheres cujas vaginas enlouqueçam - uma psicopatia sexual avançada. É a única explicação possível. Quando os filhos de Deus herdarem o Reino dos Céus, as largas e fodidas bucetas de puta herdarão o que restar do Reino da Terra...

terça-feira, outubro 02, 2001

Pegue o telefone,
Procure por mim,
Porque eu não sei onde Eu estou...
Está chovendo dentro de mim...
Eu sou o homem solitário que espia da janela.
Eu sou o jovem que está ouvindo o novo disco do Legião.
Eu sou o canalha que está seduzindo a mulher de outro.
Eu sou o operário que está sentido dores de cabeça por não haver almoçado.
Eu sou o bebê preferido de todas as putas românticas.
Eu sou o principal suspeito de ser homossexual.
Eu sou o mais jovem de todos (ainda que não seja o mais jovem de todos).
Eu sou o alvo de todos os enxovalhos.
Eu sou afilhado de todas as madrinhas vivas e uma morta.
Eu sou o adversário mais difícil numa partida de tênis-de-mesa.
Eu sou o Ilusionista.
Eu sou o coração repleto de segredos e a língua repleta de mentiras.
Eu sou a Grande Farsa.
Eu sou o Poeta que leiloou sua musa.
Eu sou o Palhaço Morto...
Algo aconteceu. Algo que obscureceu meu Talento e transformou meu intelecto em uma camisa tamanho M. Eu, que sonhava glórias... Como foi que meus sonhos se transformaram em ser aprovado num concurso público? Que foi feito de quem eu era? Fiz da minha vida uma bolsa de mulher; uma bolsa que há muito precisa ser arrumada. Festas de aniversário, festas de aniversário, festas de aniversário, Natal, vovô, vovó, titia... Meu Deus! Sou aquele que não tem parentes nem descendentes. Sou alguém condenado a uma vida trivial e feliz. Nem tão feliz: minha mulher jogou o celular bem no meio da minha cara - se tivesse acertado, tudo estaria acabado. Nem tão feliz. Talvez fosse melhor que ela o tivesse acertado. nem tão feliz. Sempre vivi melhor estando cinco anos atrás... Nem tão feliz.
Peguei o gabarito da Polícia Civil. Nota 65. Péssimo...

segunda-feira, outubro 01, 2001

Ao que parece, saí-me um pouco melhor no concurso pra Polícia Civil. Gabarito sai amanhã...