domingo, outubro 14, 2001

Chuva

Lá fora,
Uma chuva miúda,
Quase imperceptível.
A felicidade não existe a uma hora da manhã.
Houve um tempo em que saíamos para foder.
Houve um tempo em que até fizemos amor.
Houve um ano em que a Amizade era verdadeira,
Inteira e Real;
Um ano em que havia risos e lágrimas.
Agora não existe mais nada
- Nem mesmo lágrimas.
Ficou tudo lá fora
Na chuva que aumenta em barulho,
Mas nunca chegará à minha cama.
Beijos e lágrimas.
Quem era aquela com quem me encontrei três vezes
Nos últimos dez anos?
Quem era aquela menina que vi num pagode
E depois vendendo salgados num tabuleiro?
Quem era a mulher que me olhou e reconheceu na festa na Matriz?
Quem era a mulher com o mesmo sorriso e os mesmos belos olhos apertados,
De mãos dadas com um marginal?
Quem é ela cuja imagem, como chuva, cai em meus pensamentos
E meu coração?
Por que me olha?
Os meus heróis estão mortos.
Meus inimigos estão nos corações das mulheres
Que possuo.

Talvez eu devesse parar com a vida
- Masturbar-me e dormir,
Ou talvez cruzar com minha fiel cadela,
Ou abusar de alguma menina de dez anos...
A pena para todos os crimes jaz dentro do coração humano.
O grama de cocaína tem utilidade,
Mas qual a serventia do meu canto?
Ninguém quer ouvir sua voz, ou solucionar seu problema.
É cada um por si e Deus com pena de todos.
defenda o que é seu, ou seja currado
E fume um cigarro de maconha pra esquecer
Ou acreditar em discos-voadores.
É cada um por si.
Equilibre-se com sua dose de Lexotan ou cola de sapateiro,
Mas saiba que não se caminha sob o arco-íris
E ao acordar sua cama estará sempre cheirando a esperma
E seus cabelos a mofo.

Eu não tenho identidade e vou ter de trabalhar
A vida inteira,
Até me afogar no suor do meu rosto
Vazio.

Lá fora,
A chuva miúda cai para ninguém.
Qual o nosso futuro?
Qual o futuro de Elaine?
Elaine só tem dezesseis anos...
Qual a serventia do meu canto?
Eu canto para dormir.
Durmo pra não sonhar...

Quem me dera poder esperar.