domingo, outubro 21, 2001

Imagens

As vidas que não vivi
Supri-as com as que inventei;
As imagens que não vi
Fitei-as com olhos de Rei:

As cores em tons pastéis
De uma paisagem de Agosto;
Camas em quartos de hotéis,
Eterno estigma em meu rosto...

Cadafalsos em dourado
Para a morte de um instante -
Em redor do condenado
Uma multidão ululante...

Olhos de cobras mortais,
Venenos que matam feras,
Esqueletos de animais
Extintos em outras eras...

As peças de Deus em xeque
Na partida contra o Fim,
Num tabuleiro qual leque
Gravado em cima de mim...

Um mapa-astral incompleto
Da criação do Universo...
Salão tornado repleto
Para leitura de um verso -

Verso de um poeta louco
Que sabe que enlouqueceu,
Mas que entanto acha pouco
Tudo que lhe aconteceu.

A Sorte a ir pelas ruas,
Procurando por alguém...
Lindas prostitutas nuas
Cobrando menos de Cem!...

Vagas frases sem sentido,
Mas que dão valor à vida
De um artista ressentido
Com sua fé dividida...

Corações sempre trancados
A quem não lhes faça mal...
Um velho cantor de fados -
Melodias sem igual...

(Imagens de infância boa -
Quadros que a memória pinta:
A cor verde da lagoa
E do gramado da Quinta...)

Olhos verdes de uma ruiva
Que tantas vezes vi nua...
Um lobo que, à noite, uiva
Querendo alcançar a Lua...

Fotografias sem data,
Velhas cartas destruídas -
Um veneno que não mata
Esquecido por suicidas...

Delírios de Além e Noite
Que me impedem de dormir,
Alucinações-açoite
Que a sonhos fazem fremir,

Visões de Espuma, de Cor,
Mas palpáveis como Aço -
Imagens de um Rei-Ator
Que hoje assisto com cansaço...