domingo, outubro 14, 2001

Segundo Poema do Lunático

O Lunático já não reina sozinho
Na Rua da Noite.
Agora, outros, meninos e meninas, vagueiam sob o luar
Voando às cegas como morcegos
Ouvindo o canto dos gatos no cio.

Passatempos e vícios nos ajudam a ultrapassar o dia.
O cair da noite nos reúne em redor da fogueira moderna,
Como nossos ancestrais índios.
Uma jovem índia drogada e nua dança a Dança da Morte -
Seus olhos já choraram todos os sonhos impossíveis
E esta é sua última alegria.
Cantamos, dançamos e sorrimos sem saber por quê...

De madrugada, os que se esgotaram estão na cama
Sentindo o prazer de não sonhar com coisa alguma.
Apagada a fogueira, os que ainda restam estão espreitando,
À espera de algum sexo que os esgote finalmente
Ao menos por esta noite.

É uma época louca, muito distante de ser o Fim.
Não temos destino; nosso futuro não está escrito nas estrelas
Nem nenhuma conquista tecnológica há de nos mudar a vida.
Sobrevivemos de pequenos anti-milagres
E talvez não agrademos a Deus.

"- Esse é o submundo." - dirá a dona-de-casa ao nos assistir no documentário na tv.
Mas o rancor, ou o nojo, ou o medo, ou a compaixão dela não trarão de volta
As crianças que abortamos com quatro drágeas de um remédio contra úlcera.

Sim, os bebês que fazemos dissolvem-se como pequenos tumores...

A mulher acorda às três e meia da madrugada
Para sustentar-se e a seu casal de filhos:
O rio não deixa de correr à noite,
Por que, então, o Lunático dormiria?