Carta-Beat do Medo
(À Elaine Anselmo Fabiano)
Elaine, eu tenho medo hoje, que é 31 de outubro quando o relógio atinge meia-noite.
Elaine, Henrique V fala-me no noticiário na tv e eu sinto medo do fantasma de Shakespeare.
Ah, Elaine, eu me apavoro por não me assustar ao ver um cão mijando sobre um cadáver de um amigo estendido sobre o asfalto.
Começo a escrever isto me afogando estupidamente num copo de leite.
Tenho medo:
No fundo imundo do caldeirão de uma bruxa pré-medieval eu vejo Buda, Brahma, Maomé, Odin e Cristo.
Eles me dizem que sou como todos e que eu morrerei.
Morrerei.
Não verei mais o castelo português que nunca vi,
Não assistirei mais aos meus amigos cheirarem pó
E deixarei versos jamais impressos arquivados na memória do computador de outra pessoa.
Um dia morrerei. Mas ainda estou vivo.
Nos meus olhos cheios de terra, lombadas e buracos um bêbado escorrega, tropeça e cai.
Minhas mãos o vêem e examinam-lhe os bolsos: está vazio: nem Reais, nem fumo.
E o meu olhar lascivo espera desejando quaisquer outras mãos sujas ou pagas que lhe façam carícias entre os joelhos e o umbigo...
Elaine, o mundo está deixando de acabar e as pessoas ainda se casam.
Os meninos do Brasil tomam a mesma Coca-Cola de trinta anos atrás, mas a droga que usamos e dezenas de vezes mais poderosa e destrutiva.
Não, amiga, não me refiro a você que irá casar-se e ter uma vida longa, burguesa e feliz que é o que de melhor se pode conseguir da Vida.
Refiro-me a outros de nós...
Elaine, faz bem de estar espontaneamente distante.
Aqui perto é noite das bruxas e elas se divertem em seu Sabá tirando de suas narinas mais e mais políticos de direita e esquerda.
Eu tenho medo e no próximo dia 15 anularei meu voto eletrônico.
Ah, amanhã virão procurar-me em casa mas colarei um bilhete na porta dizendo que não estou,
Porque São João de Meriti é por demais pequeno para o meu desejo de orgia física, sensorial e intelectual .
Elaine, as bruxas voam sobre o meu telhado e acampam no meu portão enquanto Rose viajou para Jerusalém e não volta mais,
E Cláudio vai casar-se,
E Henrique e Anderson e outros morreram jovens.
Eu tenho medo esta noite.
Elaine, o meu medo é lugar-comum...