quinta-feira, novembro 29, 2001

Amanhã

Minha Alegria dança com meu Nojo
No baile diário no Salão das Baratas
E se irrita no banho no boxe
Cheio de lacraias.

Na escuridão do racionamento de energia
O vento varre minha poeira de estátua para longe
Enquanto procuro por um par de sapatos que me ajude
a sobreviver a uma festa de casamento.

O Vento varre a poeira para o Longe...

O poeta morreu
E as palavras me vêm como mensagens do Além.
(Se ele pudesse salvar-se a mim-mesmo,
Isto me faria feliz?...)

Muita música,
Muita alegria,
Muitos lugares a ir
E sempre, sempre o Palhaço de alma triste.

O Vento varre a poeira para o Longe...

Não me lembro de quem fui,
Mas sinto saudades de quem sou.

Aqui dentro, um calor abafado...
Pouco tempo, pouco dinheiro e compromissos não desejados. Limitações demais. Raros milagres. Meu Destino foge de mim, cavalgando o raio...

Uma noite, na penumbra do beco onde morava Sílvio Maluco, Géro nos apresentou oficialmente as drogas. Um líquido que deveria ser aspirado após derramado num lenço. A maioria cheirou e teve acessos de gargalhadas, mas Sara, que era um menino apesar do apelido, ficou louco e começou a bater a cabeça contra o muro. Aquela noite foi o começo do fim para a maioria de nós...

Havia um tempo em que éramos todos inocentes. Às vezes montávamos o enorme Ferrorama de Márcio bem no meio da sala-de-estar. Às vezes fodíamos Simone, à nossa maneira. Formávamos um círculo e dentro dele ficava a menininha passeando com um carrinho de boneca. Em meio ao passeio ela ficava de quatro em frente a um de nós, que tentava desordenadamente enfiar a vara em sua bucetinha hipotônica; às vezes ela chupava o pau de todos, gostava daquilo. Éramos uns doze e tínhamos dez anos em média; a menina tinha menos. Eu era o único que não achava muita graça naquilo. Entretanto, pouco tempo depois, fui o primeiro a me tornar obcecado por sexo.
Lá pela época dos meus treze anos, Elisângela e Patrícia apaixonaram-se por mim, sabe lá Deus por quê. Minha cara sem expressão era coberta de espinhas, meu corpo era pequeno e minha cabeça, enorme. Patrícia tinha também treze anos, seios firmes e me pagava picolés sempre que eu queria. Elisângela tinha onze e nada para me oferecer além de uma bocetinha imberbe, cujo cabaço havia sido estraçalhado pouco tempo atrás pelo pênis enorme de Cláudio, o “Porquinho”. Passávamos o dia inteiro dentro de uma casa abandonada, aprendendo a foder. Para mim, tudo começou ali – bocas, bucetas, cus, orgasmos, lágrimas, sangue, merda, mordidas, traições, obscenidades, tapas, socos e pontapés, tudo.
Depois de algum tempo, ambas me abandonaram e saíram à procura de meninos maiores que as alargassem um pouco mais. Nada senti; na época as mulheres não eram importantes para mim, e não o seriam por um longo tempo. O que eu sentia era uma ânsia biológica por bucetas.
Patrícia ficou grávida de um vendedor de cachorros-quentes seis meses depois. Elisângela tornou-se uma das mulheres de um famoso traficante e, após a morte deste, tornou-se uma prostituta profissional. Um conhecido a viu na praça Tiradentes e disse que tem uma buceta enorme... Cláudio, o “Porquinho”...

Estou cansado, insuportavelmente cansado. Trabalho, trabalho, convivo socialmente e não tenho tempo para dormir, nem para ser eu mesmo. Um serão no próximo final de semana, um almoço no outro, uma festa no outro, compras e feira no outro; e após isto outro serão, outro almoço, outra festa e novamente compras e feira. E nunca tempo para sono, sonhos ou qualquer coisa que livre da mediocridade e aproxime de Deus.
Estou cansado, profundissimamente cansado. Anseio encontrar um pote de ouro para ficar rico e poder isolar-me do convívio com pessoas. Um telegrama no aniversário, um cartão no Natal, e isto me basta. Nenhuma pressa, nenhum desespero, nenhum telefonema. Se eu seria feliz assim? Não. Mas prefiro estar em paz a ser feliz.
Estou cansado. Ardem-me os olhos e meu cérebro está anestesiado. Felicidade seria voltar para o útero da minha mãe.

Pessoas vendendo coisas à porta de suas casas...
Coisas as quais eu não necessito.
Uso palavras que me tornaram o maior amante do mundo.
Meu talento é escrever sobre nada,
Por isto, agora que estão acontecendo coisas,
Não tenho nada para escrever;
Nada,
Senão,
AMO MINHA PRINCESA!

quarta-feira, novembro 28, 2001

Dia de Aniversário. Vinte e sete anos. Mas desta vez sinto algo de diferente...
No mais, muitíssimo trabalho e serão no próximo final de semana. Muita coisa para postar, muito pouco tempo. Como disse Mario Quintana, "a vida não dá tempo para a Vida"...

terça-feira, novembro 27, 2001

Acertei 34 de 50 questões na prova do Ministério Público. Houve um tempo em que eu era inteligente...

sábado, novembro 24, 2001

Será que alguém sabe como fazer para rodar os jogos do emulador Nebula?

Sem mais posts por hoje. Amanhã estarei entre os candidatos do concurso para o Ministério Público. Relação candidato/ vaga: 760/1... Como há gente na merda!

Madrugada de sábado. Mas que diabos está acontecendo aqui? É uma hora da manhã, meus olhos ardem mas não consigo dormir. Estou acordado desde às seis da manhã, trabalhei de oito às dezessete, limpei quinhentos numeradores da sensacional máquina de fabricar dinheiro, joguei um pouco de xadrez, briguei com minha mulher, fiz um pouco de sexo e mesmo assim não consegui dormir.
Os carros continuam passando. O barulho nunca cessa.
Enquanto eu vagava, quase sonâmbulo, por programas estúpidos na tv, uma barata invadiu meu quarto. Convidei-a para um sexo à três, mas ela não aceitou. Usei então contra a desgraçada um inseticida sabor laranja, delicioso.
Não se deve escrever pensando no que os leitores irão achar. Estou escrevendo para mim mesmo, como sempre. Não estou tentando ser compreendido. Tento fugir da miséria em que me encontro.
A barata está morta sob a cama; eu, acima dela.

A estampa da camiseta da confraternização de fim-de-ano na Fábrica diz o seguinte: "2002: Paz". Em face dos últimos acontecimentos mundiais e da provável confirmação do Apocalipse Bíblico, alterarei a mensagem da minha camiseta para: "2002: Seja Lá o que Deus Quiser".

terça-feira, novembro 20, 2001

As palavras podem ter um poder cegante, hipnótico. Ultimamente não sei se as estou usando para o mal ou para o bem. Mas estamos nos divertindo, Ela e eu...

Danilo, do Skatuaba, num momento de reflexão, resmungou que todos os que lêem seu blog são bons na Língua Portuguesa e ele não. Mas, falando sinceramente, nunca vi uma pessoa escrever como ele. Parece que o que está escrito no blog vem direto do subconsciente, sem sofrer o filtro - quase sempre maléfico - do raciocínio e da razão. É pensamento em estado bruto, um diamante não lapidado. Compreender o blog dele é fácil para alguns e impossível para almas banais. Ele é um dos melhores, mas não se dá conta disto - e talvez seja melhor permanecer desse jeito. Vida longa a todos que quebram as barreiras da Língua e inventam sua própria linguagem!

domingo, novembro 18, 2001

Alguém com o poder de tudo haver perdido
Vagando por entre escombros
De sonhos nunca realizados.

Alguém com poder de nada aspirar
Silvando por entre nuvens
De sonhos jamais sonhados.

Minha mulher, em meio a uma explosão, disse que eu me acho perfeito e quero me igualar a Deus. É devastadora a capacidade que as pessoas têm de dizer sinceramente o que pensam quando estão nervosas. Em condições "normais" de corpo e espírito, ela nunca me diria uma coisa desta. O normal é mentir.
Agora não sei onde ela está, nem o que está fazendo. Está profundamente magoada porque fui sincero. Pois ela foi dolorosamente sincera comigo e eu não estou magoado. E tudo começou porque ela não tem um pingo de senso de humor. Senso de humor que eu tive quando encontrei um boné de seu ex-marido no meio das minhas roupas...

Ontem à tarde fui entregar um video à locadora e, no caminho, encontrei-me com Neide. Os grandes olhos verdes da minha adolescência continuam os mesmos, mas seu corpo engordou. Neide figou gorda e torta. Gorda, torta e feia, arrastando pelo braço um filho com nariz escorrendo.
Todas as meninas que eram lindas na minha infância e adolescência são hoje mulheres gordas, tortas e feias. Alguma são felizes, outras não. Neide, com certeza, não é.

Mensagem Codificada
Há muito busco a sinceriade absoluta. Mas mentir se torna imprescindível às vezes. Sinto muito, muito mesmo, estar mentindo para você, minha nova amiga; mas, se você compreendeu o que eu quis dizer desde o início, talvez me entenda quando a Verdade finalmente puder vir à tona.
Neste momento, metade de mim está imersa em mentiras. Chegará o dia em que tornarei minha esquizofrenia pública. Então você, minha nova amiga, poderá julgar-me, compreender e perdoar-me... ou não.

quinta-feira, novembro 15, 2001

Quando nasci meu pai era já um aposentado. Vendia pipas e criava passarinhos para passar o tempo. Dizia sempre que quando morresse iria para o Inferno, para o começo do Inferno - um lugar mais fresco - e não para as profundezas porque, afinal, havia muita gente pior que ele. Morreu assim que fiz doze anos, de tanto fumar. Eu não gostava muito dele...

Eu sou um menino. E sigo pelo mundo tentando encontrar a sinceridade absoluta...

Três e meia da manhã. Não costumo mais escrever a esta hora, mas esta foi uma noite atípica. As coisas que tenho lido me decepcionam bastante...

domingo, novembro 11, 2001

É tudo por hoje. Muito passado, pouquíssimo presente. Sinto-me uma grande farsa...

Poema do Casal Feliz

O que há a fazer é deixar-se levar.
Um amigo de infância veio-me visitar
Minha vida anoréxica e cheia de cistos,
Depois choveu...

O casal feliz não entrelaça as mãos enquanto na igreja.
Um dia suas pernas se entrelaçarão numa cama grande e nova
E seus corpos serão um único a dormir
Sob o lençol de algodão e o teto suburbano.
Dormindo, sonharão um com o outro e ninguém mais -
Não se recordarão se algum viajante passou uma temporada em seus corações,
Ou se passaram sábados inteiros em companhia de outros amores
Que agora estão sós.

Hoje choveu com o céu cheio de estrelas,
Mas mesmo assim o jovem levou para cama suas três jovens amantes
Enquanto um velho louco e bêbado tentava parar o trânsito na avenida principal.
Choveu com o céu cheio de estrelas,
Mas o casal feliz estava-se olhando nos olhos.
Hoje choveu com o céu estrelado,
Mas ninguém viu, como não vêem
Que são estúpidos os motivos por que se morre,
Que são estúpidos os motivos por que se vive
E que as estrelas só brilham envoltas em trevas...

Cinco horas da madrugada,
Alguém descobriu que a alma não dorme, a vida quase não presta
E às vezes chovem milagres que não são vistos.
Mas o casal feliz dorme em quartos distantes,
Sonhando um com o outro, esquecidos
Daqueles que ainda os amam e agora estão sós.

Três e meia da madrugada,
Tudo se desprendeu de mim.
A Realidade foi para o inferno,
Para o Verdadeiro Inferno,
E Deus fabrica arcanjos com meus anos idos -
Belíssimos arcanjos de luz...

As moscas dançam no ar sobre meu cadáver
Enquanto meu espírito assiste a um filme na tv.

Estou chegando da rua.
Minha cabeça dói,
Bolinhas multicolores bailam no ar ao meu redor.
Dos meus dedos pinga o líquido de uma buceta que amanhã não me lembrarei de quem era.
Meu coração é uma uva podre
O mais digno representante dos homens precoces e sem perspectivas.

Acordei, dormi e acordei
E a cada dia que passa
Eu envelheço vinte e quatro horas.

Isto é natural,
Mas não devia ser tão óbvio.

Deliberadamente faltei ao serão na Fábrica. Talvez por isto o Brasil tenha deixado de fabricar hoje dois milhões de cédulas de Cinqüenta Reais...

As duas da tarde o céu não é uma ponte de flores.
Através da porta
O mormaço transforma qualquer terreno num jardim suspenso.
E eu maquilando uma ou outra mágica, pensando
Em minha nova mulher que ri por saber meus segredos simplesmente ao me olhar nos olhos,
Para quem não consigo mentir e tenho medo de levar para cama.

O vento sopra levantando pó e sujeira,
Minha cadela dorme a meu lado e o Brasil me deixa tão à mingua
Que não tenho sequer trocados para cortar os cabelos.
Mas, de lugar nenhum do infinito céu cinza, Tia Maria aparece
Pequena, com uma grande bolsa em cada mão,
Presenteia-me com uma nota de Dez Reais e faz feliz
Um homem-menino que em breve completará vinte e dois anos de vida.

Vida:
Eu não desço a rua para cortar os cabelos;
Subo-a, à procura de qualquer brilho branco que torne divertida a tarefa
De sobreviver.

Candelabro
(Poema muito antigo)

É corda partida a condição
Com que eu mantinha consciência
De uma vida sem coração.
Para o meu ser agora - perdida a razão
Não há mais oração, nem ciência.

Perdido no escuro em mim,
Rodopio absurdo em meu ser alheio
Meu não querer ser assim.
Eu findo sem nunca ter fim,
Começo e me perco no meio...

sábado, novembro 10, 2001

Impressões a Caminho da Fábrica

Não é um belo dia - o sol não saiu. Cá estou a caminho de mais um serão na Fábrica. Levo na bolsa sanduíches e cansaço, e um pouco de desesperança.
O ônibus percorre toda a Baixada Fluminense, recolhendo os peões, um a um. Cada um que se acomoda no melhor assento disponível me cumprimenta com um "bom dia!" e um sorriso no rosto. Mas por que estamos sorrindo? Há realmente motivos para sorrir? "Rir de tudo é desespero"...
...
Em meio uma densa floresta, uma placa vermelha com letras brancas informa: "mel aqui".
...
Em cada ponto de ônibus uma mulher bonita. Mulheres bonitas em todos os lugares.
...
Funerária Nova Vida.
...
Bairros feios, abandonados, com suas ruas sem calçamento, esgoto correndo a céu aberto e uma ponte improvisada sobre cada vala negra. Ordem e progresso. Brasil.
...
Sete da manhã. Alguns homens e mulheres já estão bebendo, apoiando o corpo sobre os cotovelos nos balcões dos botequins.



No princípio eram as lacraias. Elas apareciam em todos os cantos da casa, principalmente no banheiro. Lacraias enormes, que subiam pelas minhas pernas na hora do banho. Há uns dois meses encontrei uma delas morta, embaixo do meu travesseiro.
Isto sem contar as baratas e os pernilongos.
Agora, como se não bastassem os insetos, o ralo do banheiro entupiu. A água do chuveiro não escoa e, enquanto espumo os cabelos com xampu anti-caspa, lavo os pés com urina de rato.
Pelos Duzentos e Noventa Reais que pago de aluguel, eu merecia um banheiro com cheiro de Pato Purific.

quarta-feira, novembro 07, 2001

Desta vez o peão não conseguiu escapar do serão na Fábrica. Vai trabalhar de 8h às 17h, no sábado e no domingo. Vai trabalhar até morrer...
Nada de internet no fim-de-semana.

domingo, novembro 04, 2001

Post deletado por problemas técnicos...

Celebração

Quando Elaine completa quinze anos,
A lua no céu é uma grande escotilha branca
Pela qual nós, do navio de nossas vidas,
Espiamos o que virá.
Terra à vista?... Nenhuma...

Os olhos da cidade não observam rachaduras no concreto do viaduto.
Dentro das rachaduras, dois mendigos dormem encolhidos
E São João de Meriti, o próprio, também - mas em auréola.
É impossível não pensar no Pior nesta noite
Fria a ponto de congelar as estrelas.

Os olhos da cidade estão preocupados.
Um de nós está há meses sem emprego;
Outro sofreu um atentado, foi baleado e nasceu de novo.
Mamãe está velha demais para isto...
Seremos um navio fazendo água?...
Talvez.

Mas, uma a uma as estrelas voltam a brilhar
E o seu brilho conjunto desce do Céu
Sobre nós, como um bálsamo,
Porque quando Elaine completa seus quinze anos
Sua felicidade nos contagia
E faz de nossas vidas um veleiro num mar calmo
Bem longe de naufragar...

Eu escrevia
O que escrevia
Para quem escrevia.
Hoje eu escrevo -
O que escrevo?
Pra quem escrevo?

Eu era
O que era
Para quem era.
Hoje eu sou -
O que sou?
Para quem sou?

A minha Vida,
A minha Arte,
O meu Vício
E a minha Morte
São hoje imagens
De um mesmo Deus
Falso...


Da janela do quarto,
A rua é principal e termina no viaduto.
O trânsito é intenso e de todas as cores.
Dentro de um dos carros,
Um novo rico dirige descuidadamente
Conversando sorridente com seu celular.
Com quem ele fala?...
Isso ele e eu nunca saberemos...

sábado, novembro 03, 2001

Subi ao monte mais alto
Onde sopra o vento mais forte.
Ao redor do topo voavam todos os sonhos que foram esquecidos.

Cheguei ao topo e aspirei, como cocaína barata,
A alma eólica de todos os sonhos.
Estou bêbado. Imaculado.
Os sonhos agora me fazem voar...

No Fim

Eu tenho duas amigas prostitutas
E uma prima ex-prostituta -
Ex até quando?
Eu tenho um primo e um amigo
No Grupo de Extermínio;
Eu tenho uma amiga lésbica
E um primo homossexual;
Eu tenho um monte de grandes amigos
Que formam uma quadrilha de assaltantes
E outros amigos que usam drogas...
- A vida errada?... Sei lá,
Um dia eles morrerão.

Mas tenho também um amigo que nunca bebeu nem usou drogas,
Nem foi a uma prostituta,
Nem teve uma experiência homossexual,
Nem explorou mulheres,
Nem cometeu adultério,
Nem nunca pegou o que não era seu...
- A vida certa?... Sei lá,
Um dia ele morrerá.

Um dia morrerei eu,
Observador-participante da vida.
E a única certeza é um caixão
E o verme que há de roer os olhos de todos nós
Igualitariamente.

Onde estará, que estará fazendo neste momento minha amiga Elaine?...

Carta-Beat do Medo
(À Elaine Anselmo Fabiano)

Elaine, eu tenho medo hoje, que é 31 de outubro quando o relógio atinge meia-noite.
Elaine, Henrique V fala-me no noticiário na tv e eu sinto medo do fantasma de Shakespeare.
Ah, Elaine, eu me apavoro por não me assustar ao ver um cão mijando sobre um cadáver de um amigo estendido sobre o asfalto.

Começo a escrever isto me afogando estupidamente num copo de leite.
Tenho medo:
No fundo imundo do caldeirão de uma bruxa pré-medieval eu vejo Buda, Brahma, Maomé, Odin e Cristo.
Eles me dizem que sou como todos e que eu morrerei.
Morrerei.
Não verei mais o castelo português que nunca vi,
Não assistirei mais aos meus amigos cheirarem pó
E deixarei versos jamais impressos arquivados na memória do computador de outra pessoa.

Um dia morrerei. Mas ainda estou vivo.
Nos meus olhos cheios de terra, lombadas e buracos um bêbado escorrega, tropeça e cai.
Minhas mãos o vêem e examinam-lhe os bolsos: está vazio: nem Reais, nem fumo.
E o meu olhar lascivo espera desejando quaisquer outras mãos sujas ou pagas que lhe façam carícias entre os joelhos e o umbigo...

Elaine, o mundo está deixando de acabar e as pessoas ainda se casam.
Os meninos do Brasil tomam a mesma Coca-Cola de trinta anos atrás, mas a droga que usamos e dezenas de vezes mais poderosa e destrutiva.
Não, amiga, não me refiro a você que irá casar-se e ter uma vida longa, burguesa e feliz que é o que de melhor se pode conseguir da Vida.
Refiro-me a outros de nós...

Elaine, faz bem de estar espontaneamente distante.
Aqui perto é noite das bruxas e elas se divertem em seu Sabá tirando de suas narinas mais e mais políticos de direita e esquerda.
Eu tenho medo e no próximo dia 15 anularei meu voto eletrônico.
Ah, amanhã virão procurar-me em casa mas colarei um bilhete na porta dizendo que não estou,
Porque São João de Meriti é por demais pequeno para o meu desejo de orgia física, sensorial e intelectual .
Elaine, as bruxas voam sobre o meu telhado e acampam no meu portão enquanto Rose viajou para Jerusalém e não volta mais,
E Cláudio vai casar-se,
E Henrique e Anderson e outros morreram jovens.

Eu tenho medo esta noite.
Elaine, o meu medo é lugar-comum...

Dia nublado e chuvoso. Sinto-me só. Só e sem a menor paciência pra nada. Leio blogs para o tempo passar, ou não passar. Gostaria que viessem me buscar em casa e que tivessem intenções obscenas...

sexta-feira, novembro 02, 2001

Angela e Eu
Agora há pouco eu estava à toa, sentado na calçada. Passou por mim um garoto, negro de olhos grandes, brilhantes. Descia a rua, feliz, perseguindo uma adolescente baixinha e gostosa, com cara de anã. Está apaixonado por ela, está claro. Nós o chamamos de baby. Eu o vi nascer e crescer. Nunca foi à escola. O pai morreu de cirrose; a mãe é alcoólatra e às vezes bebe desodorante para acalmar as células sedentas; os irmãos estão por aí, bandidos. Mesmo assim o garoto nunca fez besteira, é um anjo. Mas está deixando de ser um menino, virando um homem. Virão "parceiros", virão putas; virá necessidade de dinheiro, de afirmar-se; virão as drogas, as armas, o dinheiro fácil. Onde estão as Organizações Não-Governamentais para salvá-lo? Onde está o padre, o pastor, o pai-de-santo?... São todos filhos da puta.
"- Qual é, Murilo?" - ele me cumprimenta com um sinal de ok e um largo sorriso. Qual é, Baby? Qual é nosso caminho?... Daqui a poucos anos você irá morrer. Um bom menino... Meu Deus, um anjo...

Eu sei
Que ela sabe que mas finge não saber
Que se casou com um vagabundo,
Com um jogador cuja sorte mudou,
Um homem que já não acredita em nada,
Não comparece a churrascos em família
E enxerga a vida através de uma porta de vidro
Que está embaçando dia a dia...

Ela finge não saber
Que há noites em que a lua se apaga
As estrelas não caem
E seu sexo exala um perfume de rosas, sangue, lembranças e lactobacilos...

Já quase não me restam sonhos
E ela finge não saber
Que o meu Amor por ela
E o dela por mim
Não têm nada a ver com isto.

barba por fazer, punheta, depressão, olhar vermelho de insônia... Como nos bons tempos de solteiro. A diferença é que são duas da madrugada e tenho de me levantar às seis para trabalhar...

Bem no meio da foda, minha mulher conseguiu desperdiçar minha ereção de horas ao fazer-me lembrar de seu ex-marido...