terça-feira, dezembro 18, 2001

Andreza começou a trabalhar na Fábrica no mesmo dia que eu. Foi a primeira pessoa que conheci lá, há quatro anos. Ela tinha vinte e seis anos, longos cabelos negros quase até a bunda e um corpo apetitoso, que em nada denunciava o fato de já haver dado à luz três meninas. Engenheira química, trabalhava na Fábrica apenas porque o plano de saúde mantinha a salvo suas filhas do ataque dos vírus e bactérias. Era inocente, ingênua mesmo. Não, não se fazia de boba – era ingênua realmente, sabe-se lá por quê. Chamava-me de “coleguinha”... e eu doido por aquele rabo maravilhoso! Sempre simpática, sempre com a voz doce e um sorriso no rosto apesar dos R$250,00 mensais para sustentar as filhas e o marido desempregado.
Mas a beleza inocente de Andreza não podia passar despercebida. O gás carbônico expelido por suas narinas provocava ereções em todos os peões da Fábrica. Um a um iam tentando inutilmente seduzi-la. Até que entrou em cena Álvaro. Moreno, alto, bonito, inteligente, chefe de seção, sapato engraxado, blusão por dentro da calça, bom papo – o sujeito, embora não valesse um centavo, era o sonho de qualquer mulher, solteira ou casada, da Fábrica. Sua lista de vítimas era incontável. Apesar disso, seu charme, a princípio,não foi tão eficaz com Andreza – o que só serviu para excitá-lo ainda mais. E todos os dias, durante meses, ele a perseguiu; Até que, numa suíte de luxo de um motel da Avenida Brasil, atingiu seu objetivo.
Alguma coisa mudou na ordem do universo naquela noite em que Andreza voltou para casa com o útero transbordante de esperma alheio, deitou-se no peito do marido e dormiu profundamente. A Terra deteu-se por um segundo em sua órbita e o mar ficou liso como vidro.
Como era de se esperar, Álvaro logo se cansou dela. Durante alguns dias era possível surpreendê-la chorando pelos cantos. Pouco tempo depois, apaixonou-se por um estagiário de dezoito anos. Quando este a deixou, começou a ser fodida por outro, depois por outro, e por outro, e por outro.
Agora, quatro anos depois, os cabelos negros e compridos continuam quase até a bunda, mas Andreza está uns oito quilos acima do peso e com uma protuberante barriga de operária. Ninguém mais se excita com a sua presença; e os sorrisos são raros em seu rosto com os olhos fundos e olheiras roxas, como a maquilagem borrada de uma puta arrependida.
Sim, por tudo quanto é sagrado no mundo, eu repito: Andreza era inocente. Mas a vida raramente perdoa a inocência...