sábado, dezembro 08, 2001

E continuando o ciclo de homenagens e reconhecimento ao louco Danilo...
(Esse menino ainda vai longe...lero:P lero:P...)

CARTA A UM POETA QUE NÃO SE SABE POETA

Ele tem uma escrita que parece rio estourando, no transbordamento cínico de todas as águas, além das margens, fulo de ódio, descarado, mudo de tristeza, rio que ninguém segura em seu lugar, ora barrento, ora azul celeste, que subverte a geografia para tentar entender seu próprio curso de rio rebelde, e vai, e vai, e talz... As palavras ele as deixa completamente nuas, envergonhadas, até. Ele as despe, começando por tirar todos os graciosos ornamentos que lhes dão respeitabilidade, mas que, no fundo, são diabólicos e falsos. Quer virar as palavras do avesso, rir da cara delas, amando e desprezando o que elas significam. Nada é sagrado em si mesmo, nem a Vida, nem a Morte, nem a Dor, nada, nada, muito menos a Gramática. Definir-se, tentar ao menos, ele vive fazendo isso. Mas é tão inútil, porque ele é um mistério mutante; nasceu assim... Consegue ser malvado consigo mesmo, de uma forma que espanta, que sacode; não quer se esconder atrás de nada, nem das verdades amargas, nem das mentiras doces, preferindo dizer o que pensa, de si e do mundo, sempre como se estivesse absolutamente sozinho. Talvez esteja, talvez não, nem ele sabe ainda. Todos nós, de alguma forma, sentimos algo semelhante quando éramos parte menino, parte homem... e havia um vasto mundo diante de nós, e toda as coisas ruins pareciam desabar sobre a nossa cabeça, como se nada jamais fosse dar certo. Ele, se vivesse em outro século, talvez fosse mais um entre os poetas malditos, um Charles Baudelaire, um Arthur Rimbaud, gente rebelde, criativa e valente, de quem ele é primo-irmão. Como é curiosa a vida... Ele é neto de poeta, mas não sabe que é poeta também... Acha que é um tipo de engenheiro... mentalidade, e talz... Faz arte, mas não vê arte no que faz... Queria escrever como “aquele” e “aquele outro”... mas escreve de um jeito único, seu, e apenas seu, e o faz com tanta vida, que a gente até fica pensando: se ele parar de escrever, pode morrer. Seria como se um rio se afogasse em si mesmo. Por isso eu termino este post fazendo um pedido: transborde suas águas, menino-homem-poeta, do jeito que puder... Vá em frente, garoto, escreva para lavar a alma, a sua e a nossa, e para assustar os malditos mortos-vivos, os apodrecidos recheados de vaidades, os prisioneiros da Gramática. Escreva! O resto... não importa... não importa mesmo... e talz...
Post dedicado ao Danilo, do Skatuaba