terça-feira, dezembro 18, 2001

Há quatro anos, quando cheguei à Fábrica, eu tinha ainda alguns sonhos. Desde então, dia após dia, caminhei na trilha em direção à Realidade. Hoje, olho para trás e vejo um abismo. Lá no fundo, jazem meus sonhos, estatelados uns sobre os outros.
Não tenho sonho algum. Não quero ser rico, não quero ser um artista, não quero ser reconhecido. Não quero ser – eu sou! Pouco importa se meu trabalho esteja me aleijando; pouco importa se não tenho uma casa para morar – eu sou! Acabo de fazer um sexo alucinante com a mulher que amo e me ama devotadamente. Estou nu, escrevendo estas palavras numa folha de caderno apoiada na bunda nua de Angela. O céu cinza da tarde de verão entra pela janela do meu quarto; no rádio, a Legião canta a história de nossas vidas. Não, não tenho sonhos. Sou um homem vivendo a Realidade. Não, meu Deus, eu não quero ser feliz – eu sou!