segunda-feira, dezembro 10, 2001

Passei o dia de ontem trabalhando na construção da minha casa. Pelo menos a escada ficou pronta. Graças a isto, meu corpo saiu completamente do eixo. Doem-me as costas, as pernas, o pescoço. E meu braço direito está duas polegadas mais longo que o esquerdo.
Hoje, ao acordar, inventei uma nova doença para minha mãe e descaradamente faltei ao trabalho. “Poxa, mas você vai faltar ao serviço só porque sua mãe está morrendo? Não pensa na Empresa?”, é o que me diz a voz de rato do outro lado do telefone. Não chefe, eu não penso na Empresa; quero mais é que Ela se foda e vá à falência; minhas juntas mecânicas estão avariadas e por isto você terá um robô a menos para operar sua preciosa máquina.
Pronto, agora o dia é meu! Posso alimentar os famintos, assaltar um banco, iniciar uma nova seita, violentar uma freira. Não, começarei com algo mais simples. Vou até a geladeira e apanho um sanduíche de sardinha. Como-o, sem beber nada. Agora estou alimentado pelo resto do dia.
Estou nu, de bruços na cama, quando começo a escrever este texto. O ventilador refresca o quarto, as lacraias e as baratas estão respeitando o cessar-fogo que assinamos. As cortinas estão fechadas – desde que me tornei uma toupeira a luz do sol pode cegar-me. O barulho dos veículos na avenida parece Carmina Burana. Mas por onde começarei afinal? Toca o telefone. É minha mulher querendo saber se preparei meu almoço. Digo a ela que sim, minto. Não tenho tempo a perder, estou com muita pressa, desesperado. Este é o meu dia e eu o estou matando, de inanição...