quarta-feira, janeiro 30, 2002

Mistério. Eu estava numa farmácia, comprando um creme para os encaracolados cabelos de Angela, quando uma mulher negra, suja, maltrapilha e com uma criança nos braços me abordou e disse:
"- Moço, compra um Cepacol pra mim!..."
Para que ela queria um cepacol?

sábado, janeiro 26, 2002

Brigam Bispo Macedo e Nossa Senhora
Pelos direitos da Fé...
Enquanto isso os umbandistas
Continuam tocando atabaques,
Os budistas fazendo ioga,
Os muçulmanos fazendo a Guerra Santa,
Os judaístas acendendo velas nas noites de Sabá...

E nós, os cépticos, continuamos
Fazendo amor.
O Céu que venha se tiver que vir,
Ou não venha...

É constrangedor não saber o que pensar.
Não pensar é agonia.
Mas eu quero tanto e tão ao mesmo tempo
Que tudo acaba sempre se tornando um enorme novelo
Que não cabe em meus pensamentos.

Eu quero fazer um filme, escrever um livro,
Pintar um quadro, ser um atleta, tornar-me um ídolo;
Mas quero ao mesmo tempo ser um criminoso histórico,
Assaltar um banco, fazer reféns, balear pessoas
E fugir, e ser perseguido pela polícia, e conseguir escapar
Estapafurdiamente rico.

E quero reunir todos os meus amigos num churrasco de confraternização;
Mas eu não como carne, e quero ao mesmo tempo abandonar família e amigos
E ir fazer não sei que num lugar distante e absurdo como o Uzbequistão ou o Tibet.

E quero que a Vida seja risco e música e surpresa;
Mas ao mesmo tempo quero segurança, previsão e silêncio.
Silêncio...

E quero ser lindo, inteligente, rico e admirado para ter todas as mulheres
Fáceis e difíceis;
Mas quero ao mesmo tempo viver com Ela numa casa comum
E ser trivialmente feliz para sempre.

Eu quero tudo,
Ou simplesmente deitar numa cama aquecida
E dormir...

sexta-feira, janeiro 25, 2002

Ontem a tarde, fomos no shopping, assistir a "O Senhor dos Anéis" (bom filme). Depois da sessão, paramos para comer uma pizza. No meio da praça de alimentação, acontecia um espetáculo idiota da Dança do Ventre. Enquanto as Jades e os Lucas aplaudiam a dança da moda, ninguém reparava no menininho preto, de 5 anos, que vendia adesivos de mesa em mesa...

Às sete e meia da manhã, levantei-me da cama e saí para procurar um pão doce para Angela. Mas, sei lá por quê, hoje nenhum padeiro tinha açúcar sobrando para fazer o creme, e eu errei de padaria em padaria em busca do Santo Graal, parando, de três em três minutos para conversar com as pessoas que me viram nascer: Severino, passando com a sua "carroça" de refrigerantes para mais um dia de trabalho; Seu Manel, bêbado já às oito da manhã; a zeladora da igreja, mulher de meia-idade que desejei ardentemente em minha adolescência. Eles mais as pessoas que me davam "bom dia!", com um sorriso no rosto e o sol da manhã brilhando em seus cabelos.
O lugar é feio; tem fumaça demais, poeira demais, vômito demais, cocô de cachorro demais. Mas existem ainda pessoas boas e que valem alguma coisa. Angela ficou sem o pão-doce, mas eu dei uma boa caminhada enquanto observava a bela paisagem - a paisagem humana!

quinta-feira, janeiro 24, 2002

Angela me levou ao Museu da República. Vale a visita, nem que seja só para ver a ostentação dos nossos ex-presidentes - até Fernando Collor está lá! Sem falar na beleza do Palácio do Catete, que teve como primeiro proprietário um tal de Barão de Nova Friburgo. Na volta pra casa, tomamos um banho de chuva, que serviu para lavar a alma. É isto. Dias felizes. Portas e janelas abertas na minha casa interior...

terça-feira, janeiro 22, 2002

A Verdadeira Cara do Brasil Está Atrás da Câmera

Uma equipe de filmagem invadiu a Casa da Moeda do Brasil. Isto sempre acontece em época de lançamento de novas cédulas, mas desta vez eu percebi logo de início que se tratava de algo diferente. Câmeras grandes, de cinema; três caminhões enormes com equipamentos; guarda-roupa; e um diretor de cabelos desgrenhados, com cara de maestro-maluco.
Como eu suspeitava, não se tratava de uma filmagem trivial. Era para a propaganda política do PSDB, provavelmente para o José Serra. As belas atrizes da equipe, devidamente maquiladas, vestiram o uniforme azul-tendinite e tomaram o lugar das peoas verdadeiras, porque estas não representam bem a empresa, o Brasil no vídeo, uma vez que são negras e gordas. Uma bandeira do Brasil, de três metros de comprimento, é estendida na parede da seção, para dar um ar patriótico. O maestro-maluco manda o feitor tirar os peões de perto – o cheiro deles atrapalha sua criatividade:
“- Gravando!”
Com a bandeira nacional ao fundo, uma criatura híbrida, misto de verdade e mentira trabalha. A mão habilidosa da peoa, com luvas para esconder a pele preta, manuseia uma resma de estampas de Cinqüenta Reais enquanto o rosto ariano e sorridente da atriz olha para a câmera e diz:
“- É aqui que o Brasil vai pra frente!”
Pronto, acabou. A bandeira é retirada da parede, as luzes especiais são apagadas e a equipe bate em retirada... E o chicote volta a estalar no lombo gordo da trabalhadora real. Não, senhor FHC, não é aqui que o Brasil vai para frente. Pergunte a qualquer operário, todos sabem que aqui o país foi pro buraco, principalmente na administração do Senhor Tarcísio Jorge, irmão do seu amigo Eduardo Jorge – lembra?

Politicamente falando, sou apolítico e a favor da anarquia completa. Mas, às vezes, fatos como o texto abaixo doem, doem bastante.

Mataram o prefeito de Santo André e toda sociedade está se mobilizando para deter a escalada da violência. Como se este morto fosse o primeiro...
A violência está fora de controle, definitivamente. A “segurança pública” é um animal extinto. Por enquanto, aqui no Rio, a guerra é apenas do Comando Vermelho contra o Terceiro Comando; mas, daqui a cem anos, cada quarteirão ou bairro estará organizado num clã, como na Europa pré-medieval, e fará sua própria segurança...

quarta-feira, janeiro 16, 2002

Após a próxima sexta-feira, vinte dias de férias... Então talvez eu ponha em ordem minha casa interior.
...
"Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser..." (Fernando Pessoa)


“Malabares”

No centro da Vida,
Sob a lona de céu azul
Jogamos para o ar e pegamos sorrisos e lágrimas
- Sorrisos e lágrimas.

E jogamos também dinheiro
- Dinheiro sorrisos e lágrimas...

E jogamos também trabalho
- Trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...

E jogamos também sonhos
- Sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...

E jogamos também ilusões
- Ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...

E jogamos também amores
- Amores, ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...

E jogamos também amigos
- Amigos, amores, ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...

Por fim jogamos lembranças, felizes por ainda conseguirmos manter o equilíbrio
- Lembranças, amigos, amores, ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...

Até que a Morte derrube tudo e ponha fim ao espetáculo.


domingo, janeiro 06, 2002

Tudo bem, eu moro no Rio de Janeiro e não posso mudar isto. Mas eu ODEIO o sol e o calor do Rio de Janeiro.

Já não tenho como fazer alguma coisa.
Perdi o controle sobre tudo.
Estou entregue nas mãos de uma força superior que não sei o que seja.
Sou um boneco, um peão na partida de xadrez entre o Destino e o Caos.
Há exércitos lutando por mim,
Enquanto espero,
Enquanto não posso fazer nada,
Enquanto só espero...

"A Um Amigo"

Celso tinha vinte e dois anos.

Quando era menino
Nós o ignorávamos por ser o mais novo, o mais bobo, o mais fraco.
Mais tarde ficou forte, pesado
E aquele adolescente de boné e socos certeiros passou a ser o nosso alicerce,
Um pilar inquebrável nos embates contra o inimigo,
O inimigo que preenchia de emoção e correria o vácuo das nossas noite de sábado.

Com o passar do tempo,
Pelo mesmo motivo que todos nós,
Celso começou a cheirar.
Cheirava a suor,
Cheirava à miséria,
Cheirava à desesperança,
Cheirava a pó e a uma falsa alegria.

Na véspera de Ano Novo,
Cheirou tanto que seu grande coração explodiu
E o anjo branco da Morte veio lhe dar boas vindas.
Uma tragédia.
Celso tinha vinte e dois anos.

Este é um poema escrito há cinco anos, mas vai como uma homenagem atrasada ao aniversário de Danilo, meu amigo e irmão de alma:

""Happy Birthday"

Podes comemorar, Murilo.
Comemora!
No bolo de aniversário da Vida
Tu representas as vinte e duas velas que foram
Apagadas;
És o pavio de uma chama apagada pelo vento -
Inútil, sobrevivente a ti-mesmo.

Comemora!
Comemora, coitado de ti!
Comemora, coitado de ti que nunca comeste o bolo!
O bolo de aniversário da Vida...

Com uma idéia mirabolante, minha engenhosa esposa acabou com as lacraias que infestavam nosso banheiro. E o Ano Novo começa com a esperança de banhos mais dignos e prazerosos...