quarta-feira, fevereiro 27, 2002

Problemas:

Às vezes sinto-me refém da minha própria vida.
E Ela nunca vai compreender que a minha natureza
É mais triste que alegre...

terça-feira, fevereiro 26, 2002

Meu irmão mais velho é um policial militar. Esta tarde ele levou para a Delegacia do Menor um menino de rua, de onze anos, que estava cheirando cola. Ao chegar lá, o menino disse:
- Vou cantar uma música pra vocês...
Todos esperaram o neguinho cantar um funk qualquer. Mas o menino começou a cantar uma ópera com uma voz de melhor tenor do mundo. Ao final da apresentação, todos aplaudiram e o delegado perguntou:
- Moleque, você conhece a escola de música Villa Lobos?
Ao que moleque respondeu:
- Conheço, já fui lá!...
- E aí?
- A professora de música disse pra mim: "Preto tem que cantar samba."
O delegado ficou puto da vida. É foda...

Quando o ônibus da empresa sobe o Morro do Chapadão, um bando de felizes e inocentes menininhos corre ao lado, sorrindo e dando tchau para os passageiros. Difícil imaginar que, daqui a uns poucos anos, alguns deles estarão de fuzil em punho, prontos a atirar em quem atravesse seus caminhos. Ainda há tempo, mas ninguém fará nada por eles. Nem eu. É triste...

Expediente:

Adúlteros, racistas, fanáticos religiosos, alcoólatras, viciados, esquizofrênicos, oligofrênicos, agiotas, idiotas, desesperados, corruptos, ninfomaníacas e até gente normal. todos os tipos de pessoas. Uma miniatura do Mundo. Ah, que alegria voltar para cá!...

domingo, fevereiro 24, 2002

Mais um texto do fundo do baú:

Raimundo é um típico freguês de prostitutas. Um nordestino de meia-idade, aposentado por invalidez e sozinho na vida. Deixou a cidade-natal e veio para o Rio, logo após perder toda a família – essa é uma história que ninguém sabe contar direito, e mesmo eu sei dela apenas fragmentos. É um homem magro, de rosto enrugado e sempre sorridente, que sobrevive de, além da ínfima pensão do governo, pequenos serviços domésticos que faz para os vizinhos. É um homem fechado, alheio à festas ou qualquer outra coisa que reúna mais de três pessoas, quase autista, e por isso os vizinhos o tratam com pena, achando que ele, se não é maluco, sofre de alguma espécie de idiotia. Na verdade Raimundo nada tem de idiota. É um ser humano estranho, sim – notívago, dorme três horas por noite, no máximo; a maior parte da madrugada passa no portão de casa, meio na penumbra, e por isso sabe de tudo, dos tiros, quem deu os tiros, quem levou os tiros, quem estava no carro negro, quem traiu a esposa, quem traiu o marido, quem chegou bêbado e carregado; e tudo isso sem que ninguém perceba sua presença. Acho que ele se diverte assim. Pode ser maluco, excêntrico, mas de idiota não tem nada. É um voraz consumidor de prostitutas – “Já comi bucetas de todos os estados do Brasil”, gaba-se. Todos os finais de semana ele parte, farejando-as como um vira-latas no cio. Agora, vive me falando de uma que faz ponto aqui perto, na Praça da Matriz, “uma putinha maluca”, diz com seu sorriso de látex, “uma putinha apertada e maluca! Catorze anos... Você precisa conhece-la!” Talvez eu precise mesmo. Em breve ele me levará até ela.
...
Precisei insistir muito para que Raimundo me levasse até a sua putinha. O Paraíba não queria me levar de jeito nenhum. Michel, outro que a conhece, dissera-me que ela é linda, “nem parece uma piranha”. Pensei que, se ela fosse realmente tão sedutora, Raimundo então pudesse estar fissurado por ela. O sujeito é cinqüentão, feio e largado no mundo, sem raízes e muito esquisito; poderia muito bem ter desenvolvido uma obsessão paranóica pela puta. Foi então que acendeu a lâmpada do meu instinto de sobrevivência: comecei a imagina-lo tendo um surto psicótico e estraçalhando meu crânio com um paralelepípedo, dentro de um quarto de hotel vagabundo. As imagens dentro da minha cabeça eram extremamente reais, aquele sétimo sentido que só as mães possuem com relação aos filhos. Eu tremi. Tremia enquanto comunicava a Raimundo minha desistência do programa...
Meia-hora depois, Raimundo berrava meu nome do portão. Estava histriônica e momescamente vestido – um par de sapatos cuidadosamente engraxados, uma calça de tergal cáqui e um blusão xadrez de quinze anos atrás; e estava até de banho tomado, coisa que só faz, principalmente no inverno, em ocasiões muito especiais. Mordi o lábio para não gargalhar. Ele viera para levar-me à pequena grande puta. Olhei nos olhos dele e senti o peso do paralelepípedo sobre meu crânio. “Não to afim”, tentei resistir. Mas agora era uma questão de honra para ele – não aceitaria um não como resposta. Após dez minutos cedi; afinal já fazia um tempo relativamente grande desde a minha última foda, eu estava quase tendo uma crise de abstinência e bastou ele me lembrar que a tal tinha catorze anos para que o paralelepípedo virasse farelo.
Fomos a pé até a praça. No caminho ele repetia “que gostosa”, “que buceta”, que isso e que aquilo, uma ladainha desgraçada que conseguia ao mesmo tempo me irritar e excitar. Chegando lá, o ambiente era estagnado. Aposentados nos bares cheios de poeira e, encostadas em postes ou bancas de jornal, putas velhas e gordas com maquilagem exagerada e dentes podres. Cobras horríveis, cascavéis sacudindo seus chocalhos, prontas a dar-me botes venenosos. Havia até um camburão com quatro policiais dentro, garantindo a ordem pública. O murmurar de todas aquelas vozes chegava aos meus ouvidos e ecoava no meu cérebro como uma telepatia coletiva. Não a encontramos, paramos num botequim e Raimundo pediu uma dose de cachaça, depois outra...
Eu já estava a ponto de desistir quando Raimundo, de cara cheia e com o hálito insuportável, me disse que o caviar estava chegando. Caminhava lentamente em nossa direção, séria, mas sem intenção de disfarçar seu rebolado natural. Como o Paraíba já era freguês, ela apresentou-se a mim. Chamava-se Ada (o nome fizera-me lembrar de uma menina loira, da minha infância) e tinha uma enorme cabeleira meio ruiva, era alta para catorze anos, uma micro-saia vermelha destacava o traseiro e apenas uma blusa de tecido semitransparente cobria-lhe os pequenos e rijíssimos seios, tinha olhos claros e puxados, cara de criança e um inacreditável ar de inexperiente, de virgem... tinham razão, era sedutora, realmente sedutora. Raimundo não me deixou iniciar uma conversa, foi direto ao assunto. Ela me disse que o valor tabelado era Quinze Reais, fora o hotel, por uma foda simples sem direito à chupada ou anal – é claro, não haveria problema pelo fato de estarmos em dupla. Quando sugeri o hotel, Raimundo me olhou com espanto, como se eu fosse o maior idiota. “Que hotel porra nenhuma, vamos na linha do trem!”, disse o homem mais avarento que conheci.
Assim que atravessamos o buraco no muro da linha férrea, passou por nós uma cascavel de dentes podres, acompanhada por um freguês que gargalhava enquanto fechava o zíper da calça. Raimundo seria o primeiro, pois mal podia se conter. Grilos, ratazanas e pernilongos, além de outras cascáveis e clientes compunham a fauna daquele inusitado ecossistema. O brotinho encostou-se no muro, desabotoou a saia e abriu ligeiramente as pernas. Raimundo, ofegante, pôs para fora um membro grande e começou a enfiar nela. O infeliz estava completamente bêbado, o que fazia com que a expressão colada em sua cara parecesse ainda mais idiota. Ele arfava e chiava como uma bóia furada, cada vez enfiando com mais força; ela não sentia coisa alguma, nem dor, absolutamente nada, fitava-me com um olhar tão distante que eu a imaginava no colo da avó, chupando um pirulito ou comendo uma fatia de torta. Ora diabos! O que se desenrolava à minha frente era um autêntico crime contra a humanidade. Onde estariam os Órgãos de Defesa do Adolescente quando se precisava deles? (na certa censurando algum programa de tv). Aquele lugar, aquela cena, aquela criança sendo espremida contra o muro por aquele bêbado repugnante... normal, tudo normalíssimo na noite do subúrbio. A humanidade morreu, afogou-se no sumidouro da sua própria merda pegajosa e o resultado de toda cópula é um sapo.
Raimundo finalmente descolou-se de Ada. Virou-se em minha direção, balançando o pau, e disse “vai lá, garoto!”; depois sentou-se no mato, desfalecido. Eu, odiando-o, tinha vontade de espatifar sua cara mole. Pedi-lhe que me deixasse à sós com ela, e o homem, cambaleando, atravessou o buraco no muro, sumindo. “Anda logo, cara!”, gritou Ada. Tentei dialogar, explicar-lhe que talvez ainda houvesse tempo de largar a vida, mas ela já adquirira um coração de puta, um pequeno, seco e prático coração de puta.
“- Eu sabia, desde o primeiro momento em que olhei pra sua cara, que você era viado ou broxa!”, disse-me , com os olhos brilhando de ódio.
Era impossível. Uma puta é uma puta, mesmo que tenha catorze anos. Dei-lhe as costas e fui-me embora, mas ela me seguia, furiosa. “Merda!”, eu disse, “se é por causa dos Quinze Reais, aqui estão, compre um bom pó com eles!”, e joguei o dinheiro na calçada. Ela o apanhou e deixou de seguir-me, mas gritava de longe: “Broxa! Broxa, filho da puta!”...

terça-feira, fevereiro 19, 2002

Eu sou tão velho, que tenho de dividir minha vida em eras. Acabo de encontrar um texto antigo, da Era Pré-Angela – um texto da Era-Rosa...

O dia inteiro ando de um lado para outro sem saber o que fazer. Não tenho para onde ir, não tenho dinheiro e minhas bucetas que falam pelos cotovelos estão todas sendo penetradas por outro; há algum macho belo e potente ateando fogo nelas, e quando se cansarem e voltarem para mim estarão todas carbonizadas, no mínimo. Estou bem próximo da loucura suprema. Minha vida está miserável, e por isto eu vou cantar para você. E vou cantar com a boca imunda e a voz do pior tenor; mas vou cantar depois, antes vou soltar um grito que vai estilhaçar toda a louça da sua casa suburbana, um grito que fará os cães latirem e os gatos pararem de trepar. Porque você foi a única que durante algum tempo teve a delicadeza de ouvir meu canto podre e por isso vai ter de arcar com as conseqüências. Você, com seu uniforme de trabalho, cuidadosamente maquilada e perfumada, com os cabelos brilhando e um sorriso novo; pois o meu canto vai ser um pontapé no seu trazeirinho de moça comportada dos anos noventa, pois o meu canto vai deixar queimaduras em seus seios, pois o meu canto vai arrancar seus olhos e eu farei com eles a Dança da Chuva...
Eles me olham nos olhos. Que será que vêem? Não sei mas, seja o que for, não é o motivo pelo qual escrevo.
Domingo de sol e poluição. Rosa volta para casa de mãos dadas com seu futuro marido. Desde aquela noite estranha, quando eu lhe disse o nome dela e aquele sorriso o traiu, desde aquela noite eu sabia que ela fatalmente seria dele. Dele, o rapaz correto que jamais tem uma ereção no carnaval, ou , se a tem, imediatamente recheia as calças de linho com cubos de gelo e pede perdão a Deus; dele, o obreiro mais preocupado em salvar almas do que em fazer sexo, que nunca vai tentar beijar-lhe os seios antes do casamento; dele, que sonha fazer tudo isso, mas se auto-policia e por isso é agora o seu bom-moço. Daqui a um mês você estará noiva dele, e um mês depois vocês se casarão; depois, amor num aconchegante hotel da Região dos Lagos e uma vida pacata e feliz por toda a eternidade na Nova Jerusalém. Pois antes dessa sua eternidade eu queria somente cinqüenta horas de sexo com você. Eu sou dez vezes melhor que o seu bom-moço, porque por maior que seja o amor dele, nunca se comparará ao meu. Somente cinqüenta horas... e eu lhe possuiria com tamanha entrega que você pensaria em mim todas as vezes que estivesse sob o ventre dele, como papai-e-mamãe, por toda a eternidade. Mas eu não terei minhas horas, não terei sequer um minuto e você será dele, fatalmente dele, e nunca vai saber o quanto eu poderia ter sido bom, ou ruim.
E eu, que há três anos canto exclusivamente para você, já não tenho para quem cantar, porque quase lhe odeio. Agora eu canto para o meu umbigo, ou para o meu nariz, ou para minha barba por fazer, ou para o meu pau que deveria ser seu, mas é de um monte de outras...

segunda-feira, fevereiro 18, 2002

Uma dengue agora poderia atrapalhar o tratamento que Angela está fazendo contra a toxoplasmose. Graças a isso, ela tem de passar o dia inteiro com repelente de mosquitos no corpo. Às vezes me esqueço disso, dou-lhe uma boa lambida no pescoço e saio correndo para o serviço de desintoxicação mais próximo... Eu sou um mosquito.
"A mulatto, an albino, a mosquito, my libido, yeah!"

domingo, fevereiro 17, 2002

Confissão

É preciso comer - a comida não tem gosto...
É preciso fazer sexo - não há parceira...
É preciso fazer amor - não há Amor...
É preciso andar aos tombos - não há pedras no caminho...

É preciso lavar a alma - não há água-benta...
É preciso soltar o espírito - há pobreza de espírito...
É preciso confessar-se - o padre foi preso...
É preciso matar-se - não há vida...

É preciso amar ao próximo - não há ninguém por perto...
É preciso morrer numa guerra - não há inimigo...
É preciso evitar o vício - não há virtude...
É preciso descer ao Inferno - não há barca...

É preciso ser um nefelibata - sopraram as nuvens...
É preciso dar cabo dos loucos - os manicômios ruíram...
É preciso imolar uma virgem - a última virgem está grávida...
É preciso prever o futuro - não há Amanhã...

(Após o advento do Ano Dois Mil,
O templo do poeta ruiu, de velho...)

Possibilidade

Tão jovem, tão menino
E talvez eu morra amanhã -

Talvez um acidente,
Talvez uma bala perdida,
Ou talvez simplesmente a complicação desta febre.

Talvez morra um dos que me amam,
Talvez morram todos os que me amam,
Talvez um rei, um presidente, a apresentadora do telejornal...

Talvez um cataclisma,
Talvez um gigantesco meteoro,
Talvez a vontade de Deus,
E o Planeta tão jovem, tão menino
Morra amanhã...

E ficarão as estrelas
Brilhando por sonhos que não foram realizados.



quinta-feira, fevereiro 14, 2002

Segunda-feira de carnaval:
Temperatura do corpo: 39.6 ºC.
Pressão arterial: 8/5.
Dez dias de licença médica...
Estou com dengue,
Virei estatística...

quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Os meus posts se tornarão um pouco mais inconstantes durante algum tempo. As férias estão acabando e angela está com uma infecção na retina, cujo diagnóstico primário foi uma suspeita de toxoplasmose. Por isto dedicarei a maior parte do meu tempo livre a ela, minha redentora-musa-inspiradora.