Mais um texto do fundo do baú:
Raimundo é um típico freguês de prostitutas. Um nordestino de meia-idade, aposentado por invalidez e sozinho na vida. Deixou a cidade-natal e veio para o Rio, logo após perder toda a família – essa é uma história que ninguém sabe contar direito, e mesmo eu sei dela apenas fragmentos. É um homem magro, de rosto enrugado e sempre sorridente, que sobrevive de, além da ínfima pensão do governo, pequenos serviços domésticos que faz para os vizinhos. É um homem fechado, alheio à festas ou qualquer outra coisa que reúna mais de três pessoas, quase autista, e por isso os vizinhos o tratam com pena, achando que ele, se não é maluco, sofre de alguma espécie de idiotia. Na verdade Raimundo nada tem de idiota. É um ser humano estranho, sim – notívago, dorme três horas por noite, no máximo; a maior parte da madrugada passa no portão de casa, meio na penumbra, e por isso sabe de tudo, dos tiros, quem deu os tiros, quem levou os tiros, quem estava no carro negro, quem traiu a esposa, quem traiu o marido, quem chegou bêbado e carregado; e tudo isso sem que ninguém perceba sua presença. Acho que ele se diverte assim. Pode ser maluco, excêntrico, mas de idiota não tem nada. É um voraz consumidor de prostitutas – “Já comi bucetas de todos os estados do Brasil”, gaba-se. Todos os finais de semana ele parte, farejando-as como um vira-latas no cio. Agora, vive me falando de uma que faz ponto aqui perto, na Praça da Matriz, “uma putinha maluca”, diz com seu sorriso de látex, “uma putinha apertada e maluca! Catorze anos... Você precisa conhece-la!” Talvez eu precise mesmo. Em breve ele me levará até ela.
...
Precisei insistir muito para que Raimundo me levasse até a sua putinha. O Paraíba não queria me levar de jeito nenhum. Michel, outro que a conhece, dissera-me que ela é linda, “nem parece uma piranha”. Pensei que, se ela fosse realmente tão sedutora, Raimundo então pudesse estar fissurado por ela. O sujeito é cinqüentão, feio e largado no mundo, sem raízes e muito esquisito; poderia muito bem ter desenvolvido uma obsessão paranóica pela puta. Foi então que acendeu a lâmpada do meu instinto de sobrevivência: comecei a imagina-lo tendo um surto psicótico e estraçalhando meu crânio com um paralelepípedo, dentro de um quarto de hotel vagabundo. As imagens dentro da minha cabeça eram extremamente reais, aquele sétimo sentido que só as mães possuem com relação aos filhos. Eu tremi. Tremia enquanto comunicava a Raimundo minha desistência do programa...
Meia-hora depois, Raimundo berrava meu nome do portão. Estava histriônica e momescamente vestido – um par de sapatos cuidadosamente engraxados, uma calça de tergal cáqui e um blusão xadrez de quinze anos atrás; e estava até de banho tomado, coisa que só faz, principalmente no inverno, em ocasiões muito especiais. Mordi o lábio para não gargalhar. Ele viera para levar-me à pequena grande puta. Olhei nos olhos dele e senti o peso do paralelepípedo sobre meu crânio. “Não to afim”, tentei resistir. Mas agora era uma questão de honra para ele – não aceitaria um não como resposta. Após dez minutos cedi; afinal já fazia um tempo relativamente grande desde a minha última foda, eu estava quase tendo uma crise de abstinência e bastou ele me lembrar que a tal tinha catorze anos para que o paralelepípedo virasse farelo.
Fomos a pé até a praça. No caminho ele repetia “que gostosa”, “que buceta”, que isso e que aquilo, uma ladainha desgraçada que conseguia ao mesmo tempo me irritar e excitar. Chegando lá, o ambiente era estagnado. Aposentados nos bares cheios de poeira e, encostadas em postes ou bancas de jornal, putas velhas e gordas com maquilagem exagerada e dentes podres. Cobras horríveis, cascavéis sacudindo seus chocalhos, prontas a dar-me botes venenosos. Havia até um camburão com quatro policiais dentro, garantindo a ordem pública. O murmurar de todas aquelas vozes chegava aos meus ouvidos e ecoava no meu cérebro como uma telepatia coletiva. Não a encontramos, paramos num botequim e Raimundo pediu uma dose de cachaça, depois outra...
Eu já estava a ponto de desistir quando Raimundo, de cara cheia e com o hálito insuportável, me disse que o caviar estava chegando. Caminhava lentamente em nossa direção, séria, mas sem intenção de disfarçar seu rebolado natural. Como o Paraíba já era freguês, ela apresentou-se a mim. Chamava-se Ada (o nome fizera-me lembrar de uma menina loira, da minha infância) e tinha uma enorme cabeleira meio ruiva, era alta para catorze anos, uma micro-saia vermelha destacava o traseiro e apenas uma blusa de tecido semitransparente cobria-lhe os pequenos e rijíssimos seios, tinha olhos claros e puxados, cara de criança e um inacreditável ar de inexperiente, de virgem... tinham razão, era sedutora, realmente sedutora. Raimundo não me deixou iniciar uma conversa, foi direto ao assunto. Ela me disse que o valor tabelado era Quinze Reais, fora o hotel, por uma foda simples sem direito à chupada ou anal – é claro, não haveria problema pelo fato de estarmos em dupla. Quando sugeri o hotel, Raimundo me olhou com espanto, como se eu fosse o maior idiota. “Que hotel porra nenhuma, vamos na linha do trem!”, disse o homem mais avarento que conheci.
Assim que atravessamos o buraco no muro da linha férrea, passou por nós uma cascavel de dentes podres, acompanhada por um freguês que gargalhava enquanto fechava o zíper da calça. Raimundo seria o primeiro, pois mal podia se conter. Grilos, ratazanas e pernilongos, além de outras cascáveis e clientes compunham a fauna daquele inusitado ecossistema. O brotinho encostou-se no muro, desabotoou a saia e abriu ligeiramente as pernas. Raimundo, ofegante, pôs para fora um membro grande e começou a enfiar nela. O infeliz estava completamente bêbado, o que fazia com que a expressão colada em sua cara parecesse ainda mais idiota. Ele arfava e chiava como uma bóia furada, cada vez enfiando com mais força; ela não sentia coisa alguma, nem dor, absolutamente nada, fitava-me com um olhar tão distante que eu a imaginava no colo da avó, chupando um pirulito ou comendo uma fatia de torta. Ora diabos! O que se desenrolava à minha frente era um autêntico crime contra a humanidade. Onde estariam os Órgãos de Defesa do Adolescente quando se precisava deles? (na certa censurando algum programa de tv). Aquele lugar, aquela cena, aquela criança sendo espremida contra o muro por aquele bêbado repugnante... normal, tudo normalíssimo na noite do subúrbio. A humanidade morreu, afogou-se no sumidouro da sua própria merda pegajosa e o resultado de toda cópula é um sapo.
Raimundo finalmente descolou-se de Ada. Virou-se em minha direção, balançando o pau, e disse “vai lá, garoto!”; depois sentou-se no mato, desfalecido. Eu, odiando-o, tinha vontade de espatifar sua cara mole. Pedi-lhe que me deixasse à sós com ela, e o homem, cambaleando, atravessou o buraco no muro, sumindo. “Anda logo, cara!”, gritou Ada. Tentei dialogar, explicar-lhe que talvez ainda houvesse tempo de largar a vida, mas ela já adquirira um coração de puta, um pequeno, seco e prático coração de puta.
“- Eu sabia, desde o primeiro momento em que olhei pra sua cara, que você era viado ou broxa!”, disse-me , com os olhos brilhando de ódio.
Era impossível. Uma puta é uma puta, mesmo que tenha catorze anos. Dei-lhe as costas e fui-me embora, mas ela me seguia, furiosa. “Merda!”, eu disse, “se é por causa dos Quinze Reais, aqui estão, compre um bom pó com eles!”, e joguei o dinheiro na calçada. Ela o apanhou e deixou de seguir-me, mas gritava de longe: “Broxa! Broxa, filho da puta!”...