terça-feira, fevereiro 19, 2002

Eu sou tão velho, que tenho de dividir minha vida em eras. Acabo de encontrar um texto antigo, da Era Pré-Angela – um texto da Era-Rosa...

O dia inteiro ando de um lado para outro sem saber o que fazer. Não tenho para onde ir, não tenho dinheiro e minhas bucetas que falam pelos cotovelos estão todas sendo penetradas por outro; há algum macho belo e potente ateando fogo nelas, e quando se cansarem e voltarem para mim estarão todas carbonizadas, no mínimo. Estou bem próximo da loucura suprema. Minha vida está miserável, e por isto eu vou cantar para você. E vou cantar com a boca imunda e a voz do pior tenor; mas vou cantar depois, antes vou soltar um grito que vai estilhaçar toda a louça da sua casa suburbana, um grito que fará os cães latirem e os gatos pararem de trepar. Porque você foi a única que durante algum tempo teve a delicadeza de ouvir meu canto podre e por isso vai ter de arcar com as conseqüências. Você, com seu uniforme de trabalho, cuidadosamente maquilada e perfumada, com os cabelos brilhando e um sorriso novo; pois o meu canto vai ser um pontapé no seu trazeirinho de moça comportada dos anos noventa, pois o meu canto vai deixar queimaduras em seus seios, pois o meu canto vai arrancar seus olhos e eu farei com eles a Dança da Chuva...
Eles me olham nos olhos. Que será que vêem? Não sei mas, seja o que for, não é o motivo pelo qual escrevo.
Domingo de sol e poluição. Rosa volta para casa de mãos dadas com seu futuro marido. Desde aquela noite estranha, quando eu lhe disse o nome dela e aquele sorriso o traiu, desde aquela noite eu sabia que ela fatalmente seria dele. Dele, o rapaz correto que jamais tem uma ereção no carnaval, ou , se a tem, imediatamente recheia as calças de linho com cubos de gelo e pede perdão a Deus; dele, o obreiro mais preocupado em salvar almas do que em fazer sexo, que nunca vai tentar beijar-lhe os seios antes do casamento; dele, que sonha fazer tudo isso, mas se auto-policia e por isso é agora o seu bom-moço. Daqui a um mês você estará noiva dele, e um mês depois vocês se casarão; depois, amor num aconchegante hotel da Região dos Lagos e uma vida pacata e feliz por toda a eternidade na Nova Jerusalém. Pois antes dessa sua eternidade eu queria somente cinqüenta horas de sexo com você. Eu sou dez vezes melhor que o seu bom-moço, porque por maior que seja o amor dele, nunca se comparará ao meu. Somente cinqüenta horas... e eu lhe possuiria com tamanha entrega que você pensaria em mim todas as vezes que estivesse sob o ventre dele, como papai-e-mamãe, por toda a eternidade. Mas eu não terei minhas horas, não terei sequer um minuto e você será dele, fatalmente dele, e nunca vai saber o quanto eu poderia ter sido bom, ou ruim.
E eu, que há três anos canto exclusivamente para você, já não tenho para quem cantar, porque quase lhe odeio. Agora eu canto para o meu umbigo, ou para o meu nariz, ou para minha barba por fazer, ou para o meu pau que deveria ser seu, mas é de um monte de outras...