quarta-feira, abril 24, 2002

"Luz Cinza"

O Sol cinza que penetra minha janela...

Quero escrever um poema sem frases invertidas.
Porque minha irmã está ardendo em febre,
Mas não tem dinheiro para remédios;
E por isso aguarda que seu corpo reaja naturalmente
A uma doença chamada Miséria.

Tenho ovos e leite em minha geladeira,
Mas o meu vizinho da marquise em frente
Assou um pombo ao molho de toxoplasmose
Que essa noite será o seu jantar deste mês.

O sol cinza que penetra minha janela
Não ilumina a escuridão dos olhos da menina que viu o pai crivado de balas
À tarde, dentro de um botequim.

Versos são como sorrisos...
É verdade que eu gostaria de ter um sorriso maior no meu rosto,
Como o da atriz do cinema americano;
Um sorriso maior, que tornasse maior
O sorriso da minha musa.
Mas esse poema não é para Ela,
Nem é para os meus amigos.

Eu tinha um amigo chamado José
- ele morreu de aids;
Eu tinha um amigo chamado João
- Ele foi assassinado;
Eu tinha um amigo chamado Paulo
- Seu coração explodiu durante uma overdose.

O sol cinza que penetra minha janela
Reflete num espelho meus cabelos que estão embranquecendo
E me faz desejar estar ficando um pouco mais sábio
Para que sobreviver tenha valido a pena.