sábado, julho 06, 2002

"Vamos celebrar epidemias,
É a festa da torcida campeã!" (Perfeição - Renato Russo)


02 de julho de 2002. Não fui ao trabalho hoje. O Presidente decretou ponto facultativo, porque o Brasil é penta. Penta campeão em acidentes de trânsito; penta campeão em assassinatos a tiros de fuzil americano; penta campeão em doenças venéreas; penta campeão em pedofilia... Mas hoje não é um dia propício para se falar disto, a não ser que eu queira me tornar o chato da festa.
Afinal de contas, os alienados são bem menos infelizes...
Estou tentando aproveitar o dia de folga para estudar para o vestibular. Mas não consigo me convencer de que preciso saber o número atômico do Potássio e do Einstênio para conseguir entrar para a faculdade de letras. Uma parte de mim ficou presa no tempo da foda casual e dos jogos eletrônicos. Aquilo significava estar vivo? Estou vivo agora? Não sei. Mas naquele tempo em que as garrafas de cerveja voavam por sobre nossas cabeças e o nosso sêmen escorria por coxas adolescentes quase desconhecidas, o vento varria o asfalto selvagem e espalhava as chamas do escritor que existia dentro da minha alma. Aquilo significava estar vivo? Não sei. Mas a verdade é que podíamos morrer a qualquer momento, o que é muito diferente desta morte em vida, deste lento desligar de máquinas que é não restar tempo para uma existência real. A chama? Apagada por um temporal que transformou o vento em cansaço muscular e debilidade psicológica.
Tenho plena consciência de mim agora, enquanto caminho pela Rua da Matriz. Sentado no muro do Cemitério Municipal, o fantasma de meu pai acena com um sorriso bêbado enquanto arma uma arapuca para mais um de seus incontáveis passarinhos. Na porta do Cemitério, meu tio que morreu louco executa cambalhotas e piruetas, com os olhos arregalados e uma roupa de bobo da corte, feliz da vida, ou melhor dizendo, feliz da morte. E lá dentro, no interior do cemitério de pessoas não-nascidas, meus avós, tios, primos e vizinhos, conhecidos ou não, brincam de roda e fazem a festa, zombando dos que ainda não sabem que nem sequer nasceram.
Não, eu não preciso saber o número atômico do Potássio ou do Einstênio. Não me adiantaria, nem traria salvação. Sou uma chama apagada. Sou o que não deveria ter sido. Por culpa minha, ou não, estou fracassando como artista e isto significa também fracassar como homem, com ser humano.