quinta-feira, dezembro 19, 2002

Trânsito

Eu também dou boas gargalhadas.
Como todos, eu também luto, trabalho e vejo tv.

Também vou ao cinema e à funerais
E marco meu ponto eletronicamente em reuniões de família.

Eles não sabem
(Porque nada fica marcado no meu rosto sem expressão),
Mas já fiz amor em hotéis de última categoria
E maquilei a alma com o pó de substâncias ilícitas.

Mas e a Vida?...
Jamais soube o que fazer dela antes que a morte chegasse.
A Vida não tem sentido algum
E dói por isto -
E ainda por cima dói por isto!...

Eu também sou um cristão,
Mas o sou principalmente por pressão de Deus.

Como um louco direi a verdade:
Tudo o que faço
Faço-o para gozar um pouco menos a sensação de que estou vivendo.

Dezembro

Uma espécie de alheiamento de mim
E dos outros,
Principalmente dos outros.
Uma espécie de alheiamento da vida
Que só o amor materno soube compreender.

Uma necessidade fisiológica de estar sozinho,
Um silêncio soturno de quem não encontra igual entre os iguais,
Um buraco na alma,
Indesejado,
Como nos cabelos de um homem que começa a encalvecer.
Um buraco na alma
por onde escapa a alma da alma.

A alma, a cidade, o país, o Universo e Além
- Nenhum lugar onde se esconder.

Um tênue cordão de ouro,
Nenhuma nuvem no céu,
Sono
E saudades da caverna sombria e primordial onde nunca estarei...

terça-feira, dezembro 10, 2002

terça-feira, dezembro 03, 2002

Gosto de fluxos de consciência.
Este é o momento. Estou anestesiado, no trabalho. Ainda existem algumas dores em minha alma, muitas dores, aliás, mas que já não incomodam tanto. O chão por onde piso tornou-se algodão; o ar é coloidal, as pessoas se movimentam lentamente, como paquidermes; a máquina-mãe está silenciosa porque já não possuo ouvidos, senão para piadas. Mas o excesso de luz branca ainda me incomoda os olhos.
O homem que nos observa do alto das paredes de vidro gostou de um truque que executei, equilibrando fúria, peste, demagogia e imãs na ponta do meu nariz de negro. Por isto resolveu me promover de Escravo-Aleijado II para Escravo Aleijado III, o que me rendeu Oitenta Reais e Dois Dedos Tortos de aumento salarial. “Continue assim “– disse ele – “nunca pense!... E tome uma cervejinha nos finais-de-semana!” E antes de voltar para seu covil, o senhor da matilha colou, com saliva, um adesivo na janela do mezanino de nossas almas:

“Não bata no vidro, nem alimente os funcionários.”

Nada aqui tem cheiro de humanidade. Despi-me do Espírito, guardei-o no armário e pus um uniforme azul apertado nos testículos. A dor nos culhões me obriga a manter movimento constante e a seguir, com meus companheiros autômatos, ricocheteando de parede em parede em direção a um futuro que não chega.
Mas o efeito do anestésico não dura para sempre. Eu sou um homem. E o meu ato de amor ao me esfregar na Vida é quase sexual. Eu sou um homem e mantenho meu uniforme imundo como forma de protesto. Eu sou um homem e gosto de usar um casaco esfarrapado que me dá um ar de dignidade. Eu sou um homem. Eu sou o Homem, porque sou único e tenho nos pulsos tatuada a foto da mais bela das mulheres, que é a minha preferida. Eu sou o Homem e estou feliz comigo mesmo porque obtive conceito A na primeira fase do Vestibular Estadual sem saber o número atômico de qualquer elemento químico. Eu sou o Homem e há cinco anos amei uma mulher cujo filho se chama Raylander. Eu sou o Homem e meu rosto se perde na multidão, porque foi feito à imagem e semelhança d’Aquele que serviu de modelo para todos. Eu sou o Homem porque admiro Caravaggio e estou lendo uma biografia de kurt Cobain. Eu sou o Homem porque considero a versão acústica de “Where Did You Sleep Last Night?” a mais triste e sincera interpretação de uma música em todos os tempos. Eu sou o Homem porque erro em busca da Sinceridade Absoluta, o Santo Graal. Eu sou o Homem porque fiquei completamente nulo quando amei minha musa pela primeira vez. Eu sou o Homem porque este parágrafo é como o tempo, não tem fim, mas eu posso interrompe-lo quando quiser pois sou o responsável por ele e por mim.