Gosto de fluxos de consciência.
Este é o momento. Estou anestesiado, no trabalho. Ainda existem algumas dores em minha alma, muitas dores, aliás, mas que já não incomodam tanto. O chão por onde piso tornou-se algodão; o ar é coloidal, as pessoas se movimentam lentamente, como paquidermes; a máquina-mãe está silenciosa porque já não possuo ouvidos, senão para piadas. Mas o excesso de luz branca ainda me incomoda os olhos.
O homem que nos observa do alto das paredes de vidro gostou de um truque que executei, equilibrando fúria, peste, demagogia e imãs na ponta do meu nariz de negro. Por isto resolveu me promover de Escravo-Aleijado II para Escravo Aleijado III, o que me rendeu Oitenta Reais e Dois Dedos Tortos de aumento salarial. “Continue assim “– disse ele – “nunca pense!... E tome uma cervejinha nos finais-de-semana!” E antes de voltar para seu covil, o senhor da matilha colou, com saliva, um adesivo na janela do mezanino de nossas almas:
“Não bata no vidro, nem alimente os funcionários.”
Nada aqui tem cheiro de humanidade. Despi-me do Espírito, guardei-o no armário e pus um uniforme azul apertado nos testículos. A dor nos culhões me obriga a manter movimento constante e a seguir, com meus companheiros autômatos, ricocheteando de parede em parede em direção a um futuro que não chega.
Mas o efeito do anestésico não dura para sempre. Eu sou um homem. E o meu ato de amor ao me esfregar na Vida é quase sexual. Eu sou um homem e mantenho meu uniforme imundo como forma de protesto. Eu sou um homem e gosto de usar um casaco esfarrapado que me dá um ar de dignidade. Eu sou um homem. Eu sou o Homem, porque sou único e tenho nos pulsos tatuada a foto da mais bela das mulheres, que é a minha preferida. Eu sou o Homem e estou feliz comigo mesmo porque obtive conceito A na primeira fase do Vestibular Estadual sem saber o número atômico de qualquer elemento químico. Eu sou o Homem e há cinco anos amei uma mulher cujo filho se chama Raylander. Eu sou o Homem e meu rosto se perde na multidão, porque foi feito à imagem e semelhança d’Aquele que serviu de modelo para todos. Eu sou o Homem porque admiro Caravaggio e estou lendo uma biografia de kurt Cobain. Eu sou o Homem porque considero a versão acústica de “Where Did You Sleep Last Night?” a mais triste e sincera interpretação de uma música em todos os tempos. Eu sou o Homem porque erro em busca da Sinceridade Absoluta, o Santo Graal. Eu sou o Homem porque fiquei completamente nulo quando amei minha musa pela primeira vez. Eu sou o Homem porque este parágrafo é como o tempo, não tem fim, mas eu posso interrompe-lo quando quiser pois sou o responsável por ele e por mim.
Este é o momento. Estou anestesiado, no trabalho. Ainda existem algumas dores em minha alma, muitas dores, aliás, mas que já não incomodam tanto. O chão por onde piso tornou-se algodão; o ar é coloidal, as pessoas se movimentam lentamente, como paquidermes; a máquina-mãe está silenciosa porque já não possuo ouvidos, senão para piadas. Mas o excesso de luz branca ainda me incomoda os olhos.
O homem que nos observa do alto das paredes de vidro gostou de um truque que executei, equilibrando fúria, peste, demagogia e imãs na ponta do meu nariz de negro. Por isto resolveu me promover de Escravo-Aleijado II para Escravo Aleijado III, o que me rendeu Oitenta Reais e Dois Dedos Tortos de aumento salarial. “Continue assim “– disse ele – “nunca pense!... E tome uma cervejinha nos finais-de-semana!” E antes de voltar para seu covil, o senhor da matilha colou, com saliva, um adesivo na janela do mezanino de nossas almas:
“Não bata no vidro, nem alimente os funcionários.”
Nada aqui tem cheiro de humanidade. Despi-me do Espírito, guardei-o no armário e pus um uniforme azul apertado nos testículos. A dor nos culhões me obriga a manter movimento constante e a seguir, com meus companheiros autômatos, ricocheteando de parede em parede em direção a um futuro que não chega.
Mas o efeito do anestésico não dura para sempre. Eu sou um homem. E o meu ato de amor ao me esfregar na Vida é quase sexual. Eu sou um homem e mantenho meu uniforme imundo como forma de protesto. Eu sou um homem e gosto de usar um casaco esfarrapado que me dá um ar de dignidade. Eu sou um homem. Eu sou o Homem, porque sou único e tenho nos pulsos tatuada a foto da mais bela das mulheres, que é a minha preferida. Eu sou o Homem e estou feliz comigo mesmo porque obtive conceito A na primeira fase do Vestibular Estadual sem saber o número atômico de qualquer elemento químico. Eu sou o Homem e há cinco anos amei uma mulher cujo filho se chama Raylander. Eu sou o Homem e meu rosto se perde na multidão, porque foi feito à imagem e semelhança d’Aquele que serviu de modelo para todos. Eu sou o Homem porque admiro Caravaggio e estou lendo uma biografia de kurt Cobain. Eu sou o Homem porque considero a versão acústica de “Where Did You Sleep Last Night?” a mais triste e sincera interpretação de uma música em todos os tempos. Eu sou o Homem porque erro em busca da Sinceridade Absoluta, o Santo Graal. Eu sou o Homem porque fiquei completamente nulo quando amei minha musa pela primeira vez. Eu sou o Homem porque este parágrafo é como o tempo, não tem fim, mas eu posso interrompe-lo quando quiser pois sou o responsável por ele e por mim.


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