sábado, fevereiro 08, 2003

Fiquei em primeiro lugar no Vestibular para o curso de Letras na Uerj. Passei no concurso para Técnico Legislativo. Minha casa está, mal ou bem, sendo construída. As coisas estão caminhando bem e a largos passos. mas caminhando para onde? Eu devia estar feliz - e até estou - mas a verdade é que não consigo dar a devida importância a nada disto.
Eu vivo simplesmente. Se sinto vontade de cantar, canto; se sinto vontade de cagar, vou ao banheiro. Havia um tempo em que minha vontade gerava piruetas, tombos e sobressaltos; mas hoje... Hoje não há vontade alguma. E estes malditos quarenta graus à sombra tornam a vida rareifeita e irrespirável.
Talvez eu pare de escrever neste blog. Nada tem feito mesmo muito sentido. Para que escrever poesia? Olhe para o cair da noite: a poesia está lá. Olhe para aquele homem que dorme embaixo do viaduto: lá está ela também, embora um pouco camuflada. Poesia não é o que se escreve, é o que se vê. E, além do mais, palavra por palavra, Fernando Pessoa já disse tudo...
O que dizer? Deixou de ser gratificante brincar de escritor? Não, brincar sempre será bom. Mas, mesmo assim, eu vou embora. Viver um pouco, ou apodrecer um pouco. Acreditar que o mundo é bom e criar coragem para gerar um filho em minha musa, ou contrair uma doença incurável. Sobreviver em um emprego burocrático, ou morrer num acidente de automóvel - mesmo sem ter automóvel. Estar vivo é não ter certeza alguma...
É que eu sou um pouco triste e nem sei por quê...
Quem me dera ser como o velho português, que trabalha na construção da minha casa sem cobrar nada. Quem me dera ser como ele, pedreiro aposentado, feliz em manter-se ativo. Quem me dera ter seus olhos azuis, azuis como a mais bonita manhã de verão; azuis, e dentro deles se pode ver a alegria de muitos anos passados. Ao escrever esta frase estou emocionado e sinto uma imensa vontade de chorar, porque o velho português fala bonito e tem olhos azuis-alegria. Que este texto seja dedicado a Seu Carlos e que ele possa descansar em paz - trabalhando, feliz e muito vivo!...