segunda-feira, abril 21, 2003

"Poemeto Reminiscências"

Ela tinha sempre um brilho no olhar
Olhos que me transformavam em pedra
Mas iluminavam o caminho.

Ainda que chovesse, ainda que o tempo fose curto
Ainda que o amor verdadeiro fosse uma mentira tremenda -
Aqueles olhos faróis sempre estavam lá...

Mesmo quando o vinho se transformou em lágrimas
Os seus olhos pareciam brilhar ainda mais...

Ela se foi há muito
E seus intactos espinhos de rosa rasgam agora a carne de outro homem.
mas os olhos continuam comigo
(Item único do espólio de um amor pequeno)
E brilham sob meu teto quando se apagam as luzes
Embora hoje isto não seja nem bom, nem mau.

domingo, abril 20, 2003

"Sábado de Aleluia"

Dia morno. Morto. Morto mesmo.
O meu coração parado.
Minha cabeça doendo de tanto não pensar.
A cama dura me expulsou do sono às duas da tarde.

Eu aspiro a poeira dos carros que passam
Levando trabalhadores, criminosos e donas-de-casa;
Observo adolescentes vestidos como integrantes de gangues americanas
E meninas de seios seminus.

Ao sol, a arma do segurança informal reluz como ouro.
Os olhos do traficante de drogas ao meu lado me assustam,
Porque a Violência é pão nosso de cada dia
E não há ninguém que possa tirar o corpo de Judas do galho da árvore.

quem tiver ouvidos que ouça,
Quem tiver olhos que veja:
-Tudo está morto.
Inclusive eu
Que não fui poeta, nem homem,
Nem nada.

Santificado seja o Vosso nome.

Devem ser sete horas da manhã, não sei bem. Não há relógio por perto. Perdi o sono. Estou nu, sentado na sala da Casa das Lacraias, lendo poemas de Álvaro de Campos. Um livro de quase seiscentas páginas, o mesmo número de páginas da apostila maçante que terei de usar nos próximos dias no "Curso de Capacitação Técnica para Analistas e Técnicos Previdenciários".
Os últimos dias foram de palestras e dinâmicas de grupo. As palestras, com sempre, variaram do divertido e sonolento. Já as dinâmicas de grupo não passavam de brincadeiras infantis. Certamente que desenhar, fazer bonequinhos de argila, dançar e fazer teatro uniu muito mais o grupo, que mal se conhecia. O que eu realmente não suporto são os psicólogos. Nada contra as pessoas, contra o ser humano que detém o diploma desta carreira. O que me irrita é que o psicólogo, o profissional da psicologia só lhe diz coisas óbvias (o Óbvio Ululante, como diria Nélson Rodrigues):
- Senhor Murilo, após analisar o auto retrato que você desenhou, este bonequinho esquisito com um ponto de interrogação na cabeça, é possível perceber que você tem algumas dúvidas em relação a este novo emprego...
- É mesmo?... Não diga!
E depois vêm aquelas parábolas que todo mundo já cansou de ler - "O Carpinteiro", "A Raposa e o Bode", "O Jardineiro". E Por fim, as frases feitas - "é preciso entusiasmo para vencer", "pense em coisas boas". Meus caros, todas as parábolas e frases de efeito essenciais Jesus já proferiu há dois mil anos. Nesse caso o psicólogo acaba atuando como um Paulo Coelho que não deu certo.
A Humanidade sobreviveria sem psicólogos (e também sem blogs, ou blogueiros de mau humor).
Quanto a meus novos amigos, alguns futuros companheiros de agência, são pessoas de excelente nível cultural e grande senso de humor. Mas tenho sentido uma falta tremenda das piadas do Alair e do jeitão do Wiriadner que adicionava, pelo menos, um palavrão a cada frase dita. Não tenho saudade alguma da Casa da Moeda do Brasil, mas sinto uma falta imensurável de alguns de meus amigos peões.
Além de dar uma lida na apostila, vou aproveitar o feriado de Páscoa para tomar o remédio (Flagyl 250mg) para a Giardíase que contraí ao beber água contaminada do Rio Jordão