Por força do destino, estou aqui pela última vez. Na biblioteca, único lugar do qual sentirei saudades. Nada mudou durante o tempo em que estive fora. As baterias das máquinas e dos robôs continuam carregadas e o ar continua rarefeito. O resto é vazio. Mas, imersos no vazio, resistindo à dor das chicotadas no lombo, estão os meus bons e mais caros amigos. Ao me ver, eles forçam os grilhões e conseguem me cumprimentar e exprimir um largo sorriso.
Nunca mais voltarei à Casa da Moeda do Brasil. Isto é bom, é ótimo. À parte minha mulher-vida, com quem eu me casaria mesmo se nunca houvesse plantado meus pés aqui, o que levo deste lugar é uma tendinite no ombro direito e uma sacola com meia dúzia de humilhações. Ficarão para trás a ignorante arrogância dos tolos que me observavam através do mezanino; a ingênua esperança das mulheres de mais de quarenta anos que todas as manhãs sonham serem abduzidas por um viúvo rico; as piadas sobre a última rodada do Campeonato Brasileiro; o desaparecimento das doze estampas de Cinqüenta Reais; as demissões de amigos; os movimentos grevistas que sempre resultavam em nada...
Lá fora, reluz o ouro do sol de uma nova vida. Quase seis anos se passaram e continuo sem saber realmente quem eu sou. Um filho amado de Deus? Uma semente, que precisa apodrecer para se tornar o Sal da Terra? Não sei. Continuo nada sabendo. Mas me tornei um pouco mais cínico, um pouco mais vil, um pouco mais forte - um pouco mais de ferro. Choro muito menos agora, porém sou muito mais capaz de amar.
Fim. Nunca mais usarei este uniforme azul-desesperança. Obrigado, amados amigos, agradeço as felicitações por esta alforria. Alegremo-nos sempre por nossas conquistas, mesmo quando significam apenas um uniforme novo...