quarta-feira, junho 18, 2003

Funcionário

Minha amada dorme à espera de mais um dia de trabalho:
Musa assalariada.
Eu, míope, ligeiramente envelhecido, insône sob o edredom macio
Fantasiado de sociedade e civilização.

As contas religiosamente em dia.
Geladeira abastecida de sonhos e alimentos saudáveis,
ar limpo de ácaros, assento à prova de sobressaltos.

Todas as manhãs, Eu, homenzinho, sapatos, camisa social e gravata,
Sociável e civilizado,
Burocrata, parte da equipe.
Os processos me preocupam, as vidas dentro deles mais ainda
Porque doem como um genocídio.
Todas as manhãs, lúcido
Fantasiado de mim mesmo.

À noite, meu fantasma assombra amigos universitários.
Os livros de Platão estão lá, por ler
E os meus olhos perdidos no trajeto entre um e outro cenário de desolação.

Minha amada dorme...
Eu, fantasiado,
As contas em dia...
À prova de sobressaltos...
Os processos...
Todas as manhãs...
E os meus olhos perdidos...
O Fim?
O Fim do poema?
O Fim da Vida?
Carimbar, rubricar e datar.