domingo, dezembro 23, 2001

Um pouco de Vida Real. Esta é uma carta que encontrei à porta da minha casa em mais uma manhã assalariada:

"Rio, 10/04/2000. 20:30 horas.

Zanza, como você já descobriu, o meu problema é gravidez, mas vou contar desde o início.
Sexta-feira (24/03/2000) eu já estava bastante desconfiada, aí eu liguei pro Jefferson e ele disse que era pra eu ficar calma que agente ia resolver, ele iria me dar dinheiro pra eu fazer o teste e se desse positivo ele disse que era pra eu resolver se ia ter ou não, e qualquer que fosse a minha decisão ele "assinaria embaixo".
Aí dia 26/03 (domingo) a menstruação veio (foi até no dia que você foi no ensaio comigo), eu fiquei aliviada e contei pra ele, mas ele disse que achava melhor eu fazer o teste assim mesmo, só pra livrar a mente de qualquer preocupação, e eu concordei. Só que ele não tinha dinheiro (e nem eu) só iria receber no dia 03/04, então na terça-feira (04/04) ele foi lá no Fluzinho me dar o dinheiro. No dia seguinte de manhã eu fui no laboratório e tirei sangue, o exame ficaria pronto no mesmo dia mas eu ia passar a tarde com a minha mãe em São João e então não daria. Falei pra ele que iria pegar o resultado na quinta-feira antes de ir pro curso, mas acabou que eu dormi na quinta de tarde, e saí atrasada, fui direto pro curso, ele ficou me ligando mas eu não podia atender porque estava em aula. Aí ele foi pro Fluzinho, só que o laboratório fecha às 16:30, justamente no início da aula, aí não tinha mais jeito. Agente ficou conversando, chorando, tentando acreditar e torcendo pro resultado ser negativo.
Na sexta-feira (07/04) ele não foi trabalhar pra ir no laboratório comigo, eu fui na casa dele e ficamos conversando até dar a hora de ir lá. Quando a gente chegou lá, eu peguei o resultado, abri, mas não entendi (ou não quis entender), então eu perguntei pra menina lá e ela foi ver com a médica e voltou dizendo sorridente que era positivo. Eu não acreditei, me deu vontade de dar um soco na cara dela porque ela disse rindo.
Aí o Jefferson me puxou, agente desceu a escada, quando eu ia atravessar a rua veio um carro, me deu vontade de parar e deixar ele me estraçalhar, mas o Jefferson me puxou e por pouco o carro não me pega, eu não tava conseguindo acreditar, eu não sabia o que fazer. Quando a gente chegou aqui em casa, eu comecei a chorar, mas chorar muito de soluçar, ele chorando comigo, aí eu comecei a sentir uma dor"

O resto da carta jamais encontrarei. Como terminou a história? Ela teve o bebê? Ou abortou? A família aceitou? Jefferson assumiu a criança, ou sumiu? Para mim a criança veio ao mundo, uma linda meninha, que aos quinze anos ficará gravida e desesperada. A vida é um círculo...